As mãos de Bertha não tinham profanado a harpa de Beatriz, tocando-a; nem ultrajára a sua memoria a voz que cantava a ballada favorita da infeliz menina.
D. Luiz cedia á influencia d'aquelle brando caracter feminino, e adorava em Bertha a imagem da filha que perdêra.
Ambos se esqueciam do presente, fallando d'ella. D. Luiz mostrou a Bertha todos os objectos, que haviam pertencido á filha e que elle alli conservava ainda como reliquias sagradas.
A poucos olhos os revelaria assim, como fazia aos de Bertha. Mas a quem conservava tão bem a memoria de Beatriz não era sacrilegio o devassal-os.
—Ai, Bertha, Bertha, para que me quiz mostrar Deus aquella alma na vida, se havia assim de roubar-m'a?—exclamava D. Luiz no decurso d'este melancolico exame.
—Para lhe dar um anjo que o veja do céo e vele pelo destino d'esta familia, que ella tanto estremecia na terra.
—O destino d'esta familia!—repetiu o fidalgo, assombrando-se-lhe o semblante.—Triste destino!
—Confio nas orações d'aquelle anjo.
—Quando uma familia cumpre no mundo uma dolorosa expiação, nem as orações dos anjos podem allivial-a d'ella. Deus afastou do mundo a innocente e fraca, para me deixar só a mim o pêso do meu infortunio e o das longas culpas dos nossos. Elle bem sabia que emquanto a tivesse ao meu lado para arrimo, nem sentiria o castigo. Aceito a sentença de Deus, procurarei cumpril-a com firmeza, e oxalá que meus filhos, recebendo o sinistro legado, não desfalleçam como covardes.
—Não pense n'essas coisas, meu padrinho. Tenho fé que ainda voltarão dias felizes para esta casa.