—Não digo que não; mas quero fugir de pôr em pratica essa aptidão, se a tenho, porque talvez que depois não sentisse bastante contemplação para com o mundo, para aceitar a restricção que elle costuma impôr á satisfação das paixões.
—Mas quem te diz que se estabeleceria esse conflicto entre ti e o mundo?
—Era o mais provavel.
—Queres dizer que mais depressa te apaixonarias por alguma rapariga do povo, pobre, costumada á vida do trabalho e da economia, do que por qualquer das tuas ociosas e fidalgas primas d'estes arredores.
—Com certeza que não me seduzirão essas.
—Mas vamos; se apesar das tuas precauções o facto se désse—porque emfim… estas coisas nem sempre é possível evital-as—romperias abertamente com o mundo?
—Nem quero pensar no que faria. Talvez me resignasse a deixar-me sacrificar aos preconceitos dos outros. Sabe de quem. Resignava de certo, se o sacrificio fosse sómente meu. Mas, se amasse devéras e fosse amado, e a mulher, a quem dedicasse este amor, não tivesse igual coragem para o mesmo sacrificio… não me julgaria com o direito de fazel-a soffrer por uma ideia, que nem para ella nem para os seus tivera o prestigio de uma crença. Mas fallemos em outra coisa, porque este pensamento incommoda-me até.
—Dir-se-ia que não é sómente como pura abstracção, que elle te apparece, Jorge. Fallemos porém d'outra coisa, fallemos.
E a baroneza mudou effectivamente de conversa.
Mas, ao entrar em casa, julgava ella ter obtido as informações que desejára possuir.