—Eu retiro-me.
—Então adeus. E vae descançado; hoje mesmo tractarei d'isso. É uma coisa tão simples! Pois não te parece que é uma coisa simples? Sim, porque bem vês que eu nisso não tomo parte activa. Por acaso tinhas algum motivo para suppôr…
—Nenhum.
—Mas parecia que julgavas que eu tinha algum motivo… talvez…
—Eu não julgava tal—respondia Clemente cada vez mais espantado com a insistencia de Jorge, tão singular pelo menos como a sua primeira irritação.
Jorge conduziu o seu amigo até á porta do gabinete, onde se despediu d'elle, apertando-lhe affectuosamente a mão.
Depois de Clemente sahir, Jorge voltou a sentar-se á banca, e, como quem se dispunha a proseguir no trabalho interrompido, pôz-se com affectada tranquillidade a aparar um lapis, e trauteando a meia voz; mas tal era o estado nervoso em que ficáa e a sua distracção tão completa, que o lapis desfazia-se-lhe nas mãos, em vez de se apromptar para serviço. De repente arremessou de si o lapis, o canivete e varios livros e papeis que encontrou diante, e erguendo-se exclamou com accentuada amargura:
—Está pois decidido que eu vá pedir a Thomé da Povoa, e para Clemente, a mão de sua filha! Tem graça! Sempre se me preparam casos n'esta vida!
Principiou a passeiar na sala, com os braços cruzados, a cabeça pendida e o pensamento disputado por as mais contrarias paixões.
—Ahi está uma solução que eu não previa—continuou elle.—Sim, senhor; é a maneira mais simples e mais natural de cortar as dificuldades de que tanto me receiava. Assim tudo se resolve. Fixa-se o meu futuro, cessam as minhas hesitações, acalma-se a minha febre; applicarei o pensamento exclusivamente aos meus negocios… E ella… será feliz. Serão felizes… O casamento é natural… O Clemente é bom rapaz e Bertha…