—O quê?! Thomé!—acudiu Jorge irritado—pois cuida que eu me encarrego de similhante papel? Eu? Que interesse tenho eu em que Bertha aceite a proposta de Clemente? Que certeza posso dar-lhe de que fará bem aceitando-a? Eu sei lá? Clemente é um rapaz de quem sou amigo, mas não sei nem quero saber se d'elle se fará um bom marido. A respeito de casamentos não dou conselhos. Não quero que me lancem depois as culpas. N'esse assumpto cada um escolha por si, porque para si escolhe. Informações a respeito do Clemente! Eu?! Mas que informações quer que eu dê?
—Pois não diz que é seu amigo?—tornou Thomé, um pouco admirado com as maneiras impertinentes que notava em Jorge—Não é essa já pequena garantia para a minha Bertha, que sabe o valor que teem os homens, a quem o snr. Jorge dá esse nome.
—Ah! não sabia que eu era a pedra de toque no conceito de Bertha para julgar dos caracteres dos homens. Mais um motivo para ser reservado.
—Diga-me uma coisa, snr. Jorge—insistiu Thomé, e em tom mais decidido—se soubesse que o Clemente era um miseravel, um vicioso, um extravagante, de más qualidades, e estivesse persuadido de que seria um mau marido, ter-se-ia encarregado de pedir-me, em nome d'elle, a mão de minha filha?
—Por certo que não—respondeu Jorge promptamente e com toda a lealdade.
—Muito bem; pois é isso mesmo que eu desejava que minha filha soubesse. O snr. Jorge não lhe daria conselhos, dir-lhe-ia sómente: encarreguei-me de dar este passo, porque este homem é um homem honrado. Agora o mais é com ella. Mas isso poria as coisas no seu logar. Porém uma vez que não quer…
Passava-se n'aquelle momento na alma de Jorge uma lucta de resoluções antagonistas. Se por um lado lhe repugnava a proposta de Thomé, tentava-o por outro a curiosidade dolorosa de saber como Bertha acolheria o pedido de Clemente e a resposta que lhe daria. Receiava que a intima commoção, que procurava suffocar, se trahisse na presença de Bertha em tão solemne momento, e ao mesmo tempo custava-lhe renunciar a observal-a quando ouvisse a proposta do pae. A curiosidade venceu. Esforçando-se por desvanecer todos os vestigios da sua perturbação, Jorge respondeu a Thomé no tom da maior indiferença, que, visto que elle julgava conveniente a sua presença durante a entrevista que ia ter com a filha, pela sua parte não oppunba objecção.
E sentando-se outra vez á banca, abriu ao acaso um livro, que fingiu examinar attento, mal podendo reprimir o tremor da mão com que o segurava.
Thomé da Povoa chamou a filha ao escriptorio.
Jorge ouviu os passos de Bertha, descendo as escadas; sentiu-a abrir a porta e entrar na sala; levantou timidamente os olhos para responder ao comprimento que ella lhe dirigiu e baixou-os novamente sobre o livro que abrira.