—Que diz, Jorge? Nunca me poderá vir a felicidade da discordia da sua familia e bem vê que era inevitavel. Eu sou a filha de Thomé da Povoa, lembro-me d'isso, Jorge; de Thomé da Povoa, o antigo criado da Casa Mourisca; o homem de quem o snr. D. Luiz recebe os serviços como humilhações e insultos. Seu pae estima-me; ainda ha bem pouco me abençoou, como se eu fosse sua filha. Não queira obrigar-me a perder essa estima, que tanto prézo. Não seria feliz depois; não podia sêl-o. Assim conservarei a amizade de todos… porque o snr. Jorge ha de estimar-me sempre, não é verdade?

—Hei de adoral-a, Bertha—murmurou Jorge, submettido.

—Vamos; procedamos agora como se nada se passasse entre nós. Ganhemos coragem para cada um cumprir o seu dever e separemo-nos como bons amigos.

E commovida ainda, estendeu a mão a Jorge, que a levou apaixonadamente aos labios, cobrindo-a de beijos.

—Bertha, Bertha, não será quasi um crime o que fazemos? Despedirmo-nos assim quando pela primeira vez nos revelamos?

—Não, Jorge, não é. É um dever… doloroso, mas é um dever.

Ouviram-se as vozes de Thomé e de Luiza, que voltavam.

Jorge ergueu-se sobresaltado:

—Não posso simular a placidez necessaria para fallar-lhes e ouvil-os fallar n'este casamento, Bertha; como hei de ter animo para o presenciar? Adeus e… se lhe faltar a coragem… tudo se remediará ainda.

—Adeus, Jorge. Havemos de ser dignos um do outro. Não fraquearemos.