—E porque não? A abolição dos morgados acho eu que foi um grande acto de justiça e de moralidade; além de ser uma medida de longo alcance politico.

—Ai… ai… ai… O que mais terei de ouvir! O menino está perdido!… Pois já me applaude a maldita lei, que ha de dar cabo das familias mais illustres do reino… Ai, como elle está!…

—Deixe-se d'isso. A abolição dos vinculos só trouxe a morte ás casas que deviam morrer. O que ella fez foi proclamar a necessidade do trabalho indistinctamente para quem quizer prosperar. O esplendor das familias deve ficar sómente ao cuidado dos membros d'ellas e não da lei. Quando esses não tenham brio nem dignidade para o sustentar, justo é que elle se apague, e que o nome dos antepassados não continue a ser deshonrado pelos vicios e ociosidade dos descendentes. Mas deixemo-nos d'estas discussões, frei Januario. O meu partido está tomado. Mais tarde saberá das consequencias d'elle.

E Jorge sahiu da sala, deixando o egresso apatetado com o que ouvira.

—Que anda aqui liberalismo, isso para mim é de fé. Mas que mosca o morderia? Querem vêr que já fizeram do rapaz mação? Pois olhem que não é outra coisa. Eu quando os ouço fallar muito do trabalho… já estou de pé atraz. Tem graça! Quem os ouvir, persuade-se de que o trabalho é um prazer. Ora adeus! O trabalho é uma necessidade, o trabalho é um castigo. Para ahi vou eu. Que trabalho tinha Adão no paraizo? E não lhe chamam os livros sagrados um logar de delicias? Amassar o pão com o suor do rosto, olhem que titulo de nobreza! Estes modernismos! Mas é a cantiga da moda. O trabalho ennobrece, o trabalho consola, o trabalho é uma coisa muito appetitosa… Será, será, mas eu, por mim, se pudesse deixar de trabalhar… Ah! ah! ah.

Aqui bocejava o egresso.

—Mas que alli anda liberalismo, isso é tão certo como eu estar onde estou. Como elle fallou nos morgados!… Provará que é tão pateta que, sendo elle morgado, diz d'aquillo. E que vae declarar ao pae… Não declara nada. Um criançola que não sabe senão passear. Tomára elle que o deixem… O ocioso é que é o plebeu, o nobre é o que trabalha. Sim, sim, contem-me d'essas. Aquillo é musica de anjos. Diga-se o que é verdade, quem puder deixar de trabalhar…

Frei Januario, n'estas graves ponderações, deixou-se a pouco e pouco invadir pelo somno, e acabou por adormecer á mesa, sonhando-se em uma especie de paraizo, como o tal logar de delicias de Adão, cuja ociosidade sempre fôra objecto muito dos seus enlevos.

Deixemol-o adormecido, e vamos ter com Jorge a um dos menos arruinados angulos da Casa Mourisca.

V