—Se nas minhas palavras viu coisa que lhe parecesse uma accusação é porque de certo a consciencia lh'as interpretou assim.
Thomé da Povoa não pôde reter um movimento de impaciencia.
—Por quem é, fidalgo, não me principie v. exc.ª com esses discursos enredados, com que não me entendo. Jogo franco! Ou se não, começo eu, e será talvez melhor.
D. Luiz encolheu os hombros, exprimindo a mais aristocratica indifferença.
—Não me custou a entender as suas palavras de ha pouco, fidalgo, porque depois do que eu soube esta manhã, esta manhã apenas, repare bem, snr. D. Luiz, depois do que soube esta manhã e conhecendo como conheço o genio de v. exc.ª, já esperava ouvir alguma coisa parecida com o que ouvi. Mas nem por serem esperadas me feriram menos as taes palavras. É preciso que v. exc.ª saiba. Porque um homem que não tem a pesar-lhe na consciencia nenhuma deslealdade, um homem que tem brios, não póde a sangue frio ser suspeitado como eu o estou sendo por v. exc.ª
—Bem; pois se a consciencia lhe não exprobra nada, é o essencial. Vá em paz com ella e deixe-me em socego, homem, deixe-me, que bem preciso eu d'elle.
—Perdão, fidalgo. Isso é que eu não posso fazer. Deus me livre de ser accusado pela minha consciencia, mas Deus me livre tambem de o ser pela dos homens que respeito e estimo. E v. exc.ª, ainda que não o creia, é um d'esses.
—Muito obrigado.
—Permitta-me que vá direito ao caso. Minha filha não tarda ahi, e eu não quero fallar diante d'ella. Esta manhã foram a minha casa, (provavelmente quem veio a esta) porque vejo que vieram tambem aqui com a mesma nova… Foram a minha casa e disseram-me…
—Perdão, eu não preciso de saber o que se diz nas casas alheias.