—O snr. Jorge falla cego pela affeição que sente e é ella que não o deixa vêr o que eu vejo.

—Não seja obstinado, Thomé—disse a baroneza.—Bem vê que d'onde era mais de esperar a resistencia, já ella cahiu.

—V. exc.ª não fallaria assim se soubesse tudo. Ha dias, snr.ª baroneza, n'esta mesma sala, vendo-me offendido no meu caracter, suspeitado de tenções que nunca tive, e desesperado por não poder justificar-me, porque de facto tudo se levantava contra mim, fiz um protesto que não posso deixar de cumprir. Se lhe faltasse, eu proprio daria razão a quem me chamasse, frente a frente, intriguista, falso, miseravel…

D. Luiz atalhou, dizendo:

—Protestou o Thomé da Povoa que se o casamento de sua filha com Jorge dependesse do seu consentimento, elle o recusaria, ainda mesmo quando da recusa se seguisse a morte para ambos; e que para o não recusar seria necessario que eu, o pae de Jorge, o senhor da Casa Mourisca, o unico, segundo o pensar do mundo, de quem deveria partir opposição a essa alliança, pedisse a elle, Thomé da Povoa, como favor, esse consentimento.

Thomé fez um signal affirmativo, olhando para a baroneza, para Mauricio e para Jorge como perguntando-lhes se a tão solemne protesto era possivel faltar.

—Pois bem—continuou o fidalgo, depois de uma curta pausa, e fechando os olhos á imitação de quem se prepara a vencer um precipicio, cuja vista o faz recuar.—Pois bem, sou eu quem peço a Thomé da Povoa… como favor… que permitta que Bertha seja a esposa de meu filho.

E ao acabar de dizer estas palavras tingiram-se-lhe as faces de uma vermelhidão intensa.

Thomé fixou os olhos no rosto do fidalgo e leu n'aquelles signaes a revelação do esforço gigante que elle fizera para conseguir pronunciar tão nobres e generosas palavras.

Não estava no animo de Thomé resistir mais tempo.