O povo da aldeia viu de novo abrirem-se de par em par as janellas da velha Casa Mourisca, limparem-se das hervas parasitas as longas avenidas da quinta, erguerem-se do chão as estatuas derrubadas, jorrarem como em outros tempos as aguas dos encanamentos desobstruidos, coroarem-se de ameias as torres mutiladas, dourarem-se as columnas de talha da capella do palacio, e ao vêr isto, o povo acreditou que iam voltar dias felizes para aquella familia, sobre a qual pesara o jugo do infortunio.

Espalhou-se voz e fama do muito que fizera Jorge para conseguir esta restauração.

Admirava-se e applaudia-se a energia e a sensatez do moço, que emendára o desvario dos seus antecessores, commentavam-se os actos da sua vida de rapaz, exaltavam-se as virtudes do seu caracter varonil, e a pouco e pouco o espirito da lenda tomou posse d'esta individualidade e deu-lhe o prestigioso colorido que assegura a immortalidade na tradição popular.

Restaurada a Casa Mourisca e satisfeita a divida do Thomé, D. Luiz, a quem os assiduos cuidados de Bertha tinham feito vencer a molestia que o prostrára, voltou ao seu solar com solemnidade correspondente áquella com que o deixára. Os instinctos dramaticos do seu caracter de fidalgo assim o exigiam.

Ao regressar á casa, que outra vez podia chamar sua, e encontrando-a sob o aspecto de vida e festa havia tanto tempo perdido, D. Luiz commoveu-se profundamente.

A numerosa cohorte de criados e jornaleiros que vieram recebêl-o á porta e saudal-o com enthusiasmo, fez-lhe recordar tempos passados e as tradições feudaes de épocas volvidas, saudosas sempre para seu coração.

Dias depois celebrava-se na capella da casa o casamento de Jorge e de Bertha, com mais alegria do que pompa, com mais galas de sentimento do que de festa.

A baroneza e Mauricio vieram á aldeia para assistirem á solemnidade e demoraram-se ainda algumas semanas n'ella.

A boa Luiza desfazia-se em lagrimas de jubilo. Thomé da Povoa a custo podia reprimir o contentamento que lhe trasbordava do coração. Os esforços de Gabriella haviam conseguido que o contracto do casamento se redigisse de modo que o pae e o noivo, fazendo cada um de seu lado meias concessões, não ficassem humilhados por elle.

A fidalguia da provincia torceu o nariz á alliança, e absteve-se de tomar conhecimento do facto, que tambem lhe não foi participado.