—Então queiram dizer-me o que lhes manda a razão, e… e o que mais?…
Ah, sim… e mais o dever.
Jorge, sem se perturbar, acudiu:
—Mandam-nos trabalhar para remir essas dividas; luctar pela integridade d'estes bens, que são nossa herança, augmental-os antes se fôr possivel; mandam-nos manter em respeito essa gente, que nos olha com atrevimento, destruindo para isso os fundamentos da sua insolencia. A razão, meu pae, diz-nos que é uma vergonha e um crime para os nossos vinte annos a vida ociosa e inutil que passamos aqui.
—Muito bem; querem então meus filhos que eu lhes dê um modo de vida; veem aqui no proposito de arguir-me por me ter descuidado de os… arrumar?
O fidalgo empregou no verbo final, de um sabor burguez, toda a emphase sarcastica, que lhe inspirava a sua irritação e orgulho aristocratico.
—Não, meu pae—insistiu Jorge—vimos apenas lembrar a v. exc.ª que chegamos a uma idade em que já nos não satisfazem os gozos da vida de rapaz, de que o muito amor de v. exc.ª nos tem permittido saciar. Vimos pedir-lhe que nos conceda agora licença de nos occuparmos de outra ordem de ideias e de mudarmos de vida. Sentimos despontar em nós desejos novos, vimos respeitosamente annuncial-o a v. exc.ª e rogar-lhe a permissão para realisal-os.
D. Luiz sorriu ironico, porque não podia ainda tomar a serio a resolução dos filhos, em quem só via duas crianças; e continuou zombando:
—Está bem. Então tu o que queres ser?
Jorge respondeu promptamente:
—Procurador de v. exc.ª na administração da nossa casa.