O padre fumou com a descoberta.

O hortelão dizia:

—Foi então que o imperador… oh aquillo é que era um homem!… foi então que elle fez aquella falla que lá está toda na memoria do Mindello, que foi onde nós desembarcamos, no dia 8 de julho de 1832, alli pela tardinha.

E o hortelão, tomando uns ares solemnes e endireitando o corpo, começou recitando oratoriamente:

—«Soldados! Aquellas praias são as do malfadado Portugal; alli, vossos paes, mães, filhos, esposas, parentes e amigos, suspiram pela vossa vinda e confiam…

Era demais para a magnanimidade de frei Januario. A proclamação de D. Pedro desafinava-lhe os nervos, sempre que a ouvia; o que não era poucas vezes, graças ao enthusiasmo do hortelão. Cedendo pois ao seu animo indignado, o padre rompeu pela cozinha dentro, exclamando:

—Então que pouca vergonha é esta? O fidalgo á espera da ceia, e esta sucia de mandriões aqui postos a ouvir as patranhas d'aquelle senhor!

Os criados surprendidos ergueram-se em alvoroço e tomaram os seus postos. O hortelão reagiu, como era seu costume.

—Patranhas? Isso lá mais de vagar. Isto vi e ouvi eu, como o vejo e ouço a vocemecê, e muito me honro em dizêl-o. Patranhas! Quem quizer, póde lêr tudo isso nas gazêtas e muitas coisas mais. Eu fui soldado do imperador e…

—Está bom, está bom: pouco fallatorio. Você o que é, é hortelão; e o logar dos hortelões não é na cozinha.