Carlos fez distrahidamente um gesto affirmativo, e passou a examinar o botão de peito do snr. Anastacio Rebello.

—Ora v. s.ª—proseguiu este—ha de estar certo de que ha dois mezes… um meu correspondente de Braga me pediu… Eu não sei se o pae de v. s.ª lhe disse… Talvez não dissesse…

—Talvez não—disse Carlos, sem o attender…

—Pois o negocio é simples: este meu correspondente… que é também meu compadre… isto é, eu é que sou padrinho do filho d'elle, uma creança de treze annos, que esteve ha mezes em minha casa, a banhos na Foz, por causa de uns humores frios que…

Carlos assobiava já.

—Mas agora quer este meu compadre… Olhe; aqui está a carta que elle me escreveu;—proseguiu o homem, procurando-a no casaco—eu julgo que a trago commigo… Por ella fará ideia.

E principiou a tirar papeis sobre papeis, cartas, escriptos, ordens, letras, contas, recibos… dizendo, ao passo que examinava cada qual por sua vez:

—Não… isto é outra cousa… é a ordem para me pagarem uns cincoenta e tantos mil réis… E já não veem sem tempo… Mas onde diabo puz eu a carta?… Não é isto… Isto é o escripto de arrendamento da minha casa do Forno Velho… Isto é… Que S. Pedro é isto?… Ah! a carta do Maranhão… isto … isto é uma encommenda que me fazem de Bragança… V. s.ª não me sabe dizer onde se vende… a estampa da guerra da Crimeia?

—Eu não, senhor—disse Carlos, dando dois passos para o escriptorio.

—Encommendaram-m'a e eu…—continuava o homem, seguindo-o—Ah! achei; cá está a carta!—exclamou, segurando Carlos pela manga do casaco—Ora quer ler?