—Então parece-lhe indigno o assumpto? Ora diga, Manoel Quentino, diga se, quando era rapaz, não massava tambem com o tal assumpto os velhos do seu tempo.
—E a competente commissão.—Não que eu, quando era rapaz, já tinha mais em que cuidar…—Em vista pois das ordens recebidas…—Cuida que me levantava ao meio dia para pensar em moças, e que me deitava lá por altas horas, inda por causa d'ellas?
—Então que fazia você?—insistia Carlos, tomando a penna e desenhando uma figura na margem do jornal do dia.
—Com lucros provaveis…—O que eu fazia bem o sei; ainda me não esqueceram as madrugadas dos meus vinte annos…
—Ah! madrugadas!… Bem entendo!…
—Para trabalhar, para trabalhar! Está muito enganado, se cuida que todos tiveram a sua vida. Bom era isso!—A fallencia da casa Rodrigues e…
—Grande vida a minha!—continuava Carlos—Ha lá nada mais semsabor?
Veja que precioso tempo perdido n'esta soturna sala.
E ao dizer isto ia, insensivelmente, sem reparar no que fazia, aproximando a penna da borda da carta, que Manoel Quentino escrevia, e quasi principiava a desenhar algum ornato n'ella.
—Oh! oh!—exclamou o velho, arredando-lhe a mão—Que ia fazer? Se lhe parece, suje-me agora a carta.
Carlos ergueu-se rindo e pôz-se a passeiar na sala.