Cecilia era o que naturalmente a todos occorre chamar—uma pobre rapariga.—N'esta expressão nada ha que faça suppôr a belleza da pessoa a quem se applica, bem sei; nem em rigor se refere a qualidade alguma moral.

É certo; porisso não analyso. Succede porém que, quando de qualquer mulher, que não conheço, ouço dizer que é—uma pobre rapariga—, não sei por que a imagino bella, bella de belleza nacional e com um coração… como o coração de Cecilia.

Aqui temos a ingleza Jenny, que não poderia receiar confrontos com a sua amiga, nem em gentileza nem em bondade; mas, não sei porquê, lembrou-me chamar a Jenny anjo e fada, e hesitaria em definil-a, como defino Cecilia.

Accusar-me-hão de dar á filha de Manoel Quentino uma feição demasiadamente burgueza, com a phrase burgueza, pela qual a caracteriso. Folgarei de que seja merecida a critica, porque…—vá aqui mais outra confissão, em que revelarei a minha coragem—, eu sympathiso mais com os typos burguezes do que com os typos aristocraticos,—e em mulheres sobretudo. Rodeia-se de mais poesia aos meus olhos a rapariga burgueza, e sem aspirações a deixar de sel-o, quando a trabalhar á luz do candieiro, do que a elegante dos salões, gastando a imaginação em problemas de toucador; a costura, a simples, a modesta costura, util e abençoada applicação da agulha feminina, agrada-me bem mais do que as bonitas futilidades do, reputado mais nobre, trabalho de bastidor; a mulher que a si propria se penteia, acho-a mais merecedora da contemplação do artista, do que a indolente que, reclinada n'uma poltrona e folheando o jornal de modas, entrega a cabeça ás mãos de uma criada ou do cabelleireiro. Esta, a ser copiada, basta-lhe por téla … um leque ou uma tampa de cartonagem.

Sim, Cecilia não tinha nada do typo aristocratico; n'isso era ella ainda genuinamente do Porto, cidade cujo principal titulo de gloria é o ter, em épocas em que a nobreza era tudo, previsto que podia e devia prescindir d'ella, para se engrandecer.

XII

OUTRO DEPOIMENTO

—Esteve doente, Cecilia?—perguntou Jenny, accommodando o chapéo da amiga.

—Não; porque m'o pergunta?

—Nem eu sei. Pareceu-me ler-lhe no rosto… e depois… veio tão tarde.