Em uma palavra, Carlos, que tinha visto frequentes vezes Cecilia, ainda que nunca muito attentamente, não pôde, por mais que o tentasse, tirar da memoria uma imagem distincta d'essa rapariga.

Em compensação recordava-se do metal de voz sonoro, com que ella lhe fallára no baile, da graciosa maneira de rir, de tudo quanto lhe dissera, de todas as pequenas circumstancias d'aquella aventura do carnaval, de todas, e tão profundamente se deixou embeber n'estas cogitações que, apoiada a cabeça entre as mãos, os cotovêlos sobre a mesa, e os olhos meio fechados, nem se lembrava de Byron, que sinceramente julgava continuar a ler, nem sequer tinha consciencia do logar onde estava.

A luz amortecida diffundia no aposento soturna claridade, e o silencio era tal, que Carlos ouvia-se respirar.

De repente, como que tentando sair d'aquelle estado, afastou de si o livro com vivacidade.

Vergou a cabeça para traz sobre as costas da cadeira, e passou a mão pelos olhos, á maneira de quem desperta de um sonho. Mas, depois de avivar a luz, caiu de novo na mesma abstracção de que saíra.

Foi porém só a mão esquerda que se encostou á cabeça d'esta vez, emquanto que a direita pegou em uma penna e pôz-se a desenhar e a escrever á tôa sobre uma folha de papel branco, que lhe estava ao alcance.

Escusado é dizer que a alma não tomava parte n'isto.

Segundo a theoria de Xavier de Maistre, la bête ou o outro, que, em nós, devemos distinguir do eu, cansára-se de ler e escrevia agora. A alma, essa continuava na tarefa anterior, meditava ainda.

Observo porém que são perigosas muitas vezes as occupações, a que o tal outro se entrega, quando sacode por momentos o jugo do companheiro. O mesmo Xavier de Maistre aponta-nos exemplos d'isso.

Uma das distracções mais arriscadas é esta de escrever, A mão é indiscreta; e a razão se se descuida, está sendo atraiçoada, quando menos o pensa, por estes automaticos movimentos, que parecem sem significação.