Longe de nós o querer estabelecer analogias, muito intimas, entre estes perpetradores de grandes maldades e Carlos, que, para com a consciencia, só tinha a justificar-se de um d'esses peccaditos que, mais ou menos, ha de forçosamente commetter quem tenha nas veias um sangue de vinte annos.
Mas é um tal jury o da consciencia, que, sempre que taes pleitos são necessarios no seu tribunal, a causa é já por isso má. Para as justas dispensa advogados.
Não procuremos illudir-nos nós, como Carlos; sem querer duvidar dos bons sentimentos d'elle, póde-se ir buscar outras razões para a visita, cujos promenores no ultimo capitulo relatamos.
O que é fóra de duvida é que depois d'aquella vigilia, em que o leitor o viu, não teve Carlos pensamento e imaginação, senão para descobrir um meio de tornar a encontrar-se com Cecília, e de fallar-lhe.
O resultado foi o que sabemos.
Se havia sido tão profunda a impressão produzida por a casual revelação do theatro n'aquelle espirito affectado já de vagos preludios do mal, mais a fundo se gravou ainda depois da visita feita a Cecilia.
Parecia que nas poucas palavras que n'essa entrevista Cecilia pronunciára, Carlos tinha decifrado sentidos occultos; pensava n'ellas.
Depois a coincidência de ter sido quasi evocado por aquella mal distincta figura de mulher, quando dias antes fitára de longe distrahidaraente os olhos em uma janella, avultava-lhe agora como uma cousa acima do simples acaso; por pouco estava a acreditar que a secreto influxo lhe haviam n'esse dia obedecido os olhos.
Vejam se não é serio o estado do coração de Carlos, que assim está quasi a tornal-o supersticioso.
Eram duas horas da tarde, quando Carlos chegou a casa. Tomando logo por a rua do jardim, para onde se abriam as janellas do quarto da irmã, parou por baixo d'ellas, e bateu nos vidros uma leve pancada.