Quando ia já proximo da casa, appareceu subitamente alguem á janella. Era Cecilia; adivinhou Carlos que era ella, antes de reconhecer. Com a apparição ficou mortificado e contente; outra vez o mesmo phenomeno paradoxal.
Apressou logo os passos e tomou uns ares de homem atarefado, como se quizesse dar a entender que a sua passagem por alli era puramente casual ou motivada por negocio urgente.
«Incoherencia!» dirá um galanteador de profissão. Incoherencia, é verdade; e pobre da paixão, que não dá para incoherencias. Se o rigor syllogistico resiste a uma d'estas commoções do coração, não vale a pena tomal-a a serio.
Ao passar por defronte da janella, Carlos cumprimentou Cecilia, timidamente, quasi canhestramente, sem lhe sobrar coragem para a fitar e não ousando voltar de novo a cabeça, em todo o resto da rua, que seguiu até o fim.
Interiormente redobrava a impaciencia e má vontade contra si proprio. Elle, que sempre se reconheceu arrojado, agora com acanhamentos de namorado noviço!
Parou na alameda, que ficava ao fim da rua. Não lhe saíu aquillo da ideia.—Que quer isto dizer?—pensava elle—Então não estou eu transformado em estudante de quinze annos, que nem frieza de animo tem para cumprimentar a prima, por quem julga morrer de amores? Acho-lhe graça!
E enchendo-se de brios, preparou-se, passados momentos, com maior denodo, para voltar.
Mas, apesar de todas as prevenções, a coragem ia-lhe faltando, á medida que se aproximava do logar do perigo.
Justamente na occasião, em que o attingia, chegava Manoel Quentino á porta de casa.
Era uma d'estas coincidencias felizes, de que, em outra occasião, Carlos saberia tirar partido.