—Olha como vae aquella alminha! ha de custar-lhe a dar com a porta de casa.

Estas palavras affligiram ainda mais este pobre pae, já tão afflicto.
Tinha chegado á capellinha do Padrão.

—Que angustias, meu Deus! Valei-me, nossa Senhora!—murmurou elle.

Encostou-se algum tempo ás grades da porta, porque já não podia andar.

Fez uma oração fervente, d'estas orações que, se não abrirem de prompto caminho até o throno de Deus, é porque para sempre se fecharam já as portas do céo a todas as preces da humanidade. Mais sentida, mais do coração, do que aquella, é que se não fazem no mundo.

Pareceu ganhar vigor por um pouco. Proseguiu, mas com o andar mais tardo e vacillante. Cêdo porém voltaram as ameaças do mal. Um entranhado terror apoderou-se-lhe do coração, uma como mysteriosa consciencia de proximo perigo.

As luzes da illuminação publica appareciam-lhe coloridas de vermelho. A perturbação de vista augmentou; tudo girava em volta d'elle; os objectos tornavam-se-lhe indistinctos, afigurava-se-lhe que o terreno descia de repente, e em uma descida tão rapida, que elle teve de parar para não caír. Encostou-se á ombreira de uma porta.

Ouviu a voz de alguem, que já nem viu, dizer-lhe:

—O senhor não está bom? Entre para descansar.

—Não—disse elle com certo desabrimento, como se aquelle conselho lhe desvanecesse cruelmente a illusão, que fazia por conservar ainda.