—Então com que… encarrega-se da escripturacão?—perguntou o velho, não podendo reter um sorriso, o primeiro que se lhe desenhou nos labios esta manhã.

—Encarrego, sim.

—Olhem que fortuna para a casa! Agora é que ella prospéra… Eh! eh! eh! Valha-o Santo Antonio.

—Então faz-me a injustiça de me suppôr incapaz de applicar as minhas forças a uma empreza qualquer, quando d'ahi possa provir algum bem para um amigo?

Desde que Carlos fez esta pergunta, Cecilia esposou logo mentalmente a causa d'elle: não só acreditou na sinceridade do offerecimento, mas até—vejam que confiança!—até na possibilidade, ou mais ainda, na probabilidade da sua realisação.

Manoel Quentino não era tão facil de mover dos seus juizos. Comtudo tambem o abalaram as palavras de Carlos, ainda que em outro sentido.

—Não, homem;—disse o guarda-livros, meio commovido—eu não duvido da sua boa vontade, nem do seu animo decidido para sacrificios. Bem recentes tenho provas que me não deixam duvidar. Sei que lhe devo talvez a vida. Não pense que sou ingrato. Mas, venha cá, ouça: como quer encarregar-se de um serviço, ao qual tem sempre andado estranho? Era como se eu me mettesse a ir salvar a nado alguem, que estivesse a afogar-se no meio do rio. De que me valeriam os bons desejos, se iria ao fundo, como um prégo, antes de lá chegar?

—Mas tão difficeis lhe parecem essas cousas de commercio, que, dentro em dois ou tres dias, com alguns conselhos e explicações suas, eu não me habilite a comprehendel-as?

Manoel Quentino encolheu os hombros.

—Homem, que conceito faz da minha intelligencia?!—insistiu Carlos—Demais, eu alguma cousa aprendi no collegio, que talvez me sirva. Póde ser que não ande de todo já perdida uma sciencia que, devo confessar, tenho deixado fóra do serviço desde… desde que a adquiri.