De facto, nada ha de tanta influencia para o coração como um colloquio assim, bem futil, bem insignificante, no estado a que haviam chegado os sentimentos de Carlos e de Cecilia.

Quanto mais ligeiro, quanto mais pueril é o assumpto de um dialogo d'estes, tanto mais se empenham os corações dos que o sustentam.

Os dialogos amorosos, que estamos costumados a escutar entre o galan e a primeira dama, no tablado dos theatros, ou a ler nos capitulos dos romances, dialogos cortados de interjeições e cheios de subtis theorias do mais acrisolado sentimento, são excepções na vida real; e, quando se dão, sáe-se d'elles mais livre, mais disposto a esquecer, menos propenso a sonhar; servem como de expansão aos affectos accumulados—expansão em que estes ás vezes completamente se dissipam. Mas os constrangimentos, os silencios, dos quaes a imaginação em vão procura livrar-se, e sobre tudo o conversar aturado sobre mil cousas futeis e indifferentes, isso sim, que é bem mais para temer; porque, emquanto dura a troca reciproca de formulas insignificantes, o coração põe em campo outros emissarios secretos e invisiveis, que adiantam consideravelmente as negociações pendentes e conseguem realisar a entrega da praça, sem o minimo combate manifesto.

Digam-o os numerosos pares, para quem voam as horas e desapparece o mundo, de enlevados que se entregam a esses interminaveis dialogos, motivo de zombarias apparentes e de occultas invejas dos que os não podem gosar; digam se, quando mais sinceros sentiam em si os affectos, eram metaphysicas e transcendentes especulações sobre o amor o que assim lhes absorvia as attenções e os cuidados; digam se, quando, ao terminar um d'esses felizes dias, tentavam reproduzir as impressões recebidas no decurso d'elle, recordando as palavras ditas e escutadas n'aquellas longas entrevistas, outra cousa lhes conseguia avivar a memoria que não fosse dialogos pouco dramaticos, banalidades sobre assumptos indifferentes, mas sob cujo disfarce o coração achára meio de dizer muito, e até mais eloquentemente, do que ainda poeta algum o pôde exprimir—nem o proprio Petrarca nos seus trezentos e dezoito sonetos.

Isto aconteceu a Carlos Whitestone. Poucas vezes voltára a casa mais possuido d'essa intima e indefinida alegria de quem assiste em si ao ateiar de uma paixão, do que na noite, em que se verificou o dialogo, que o leitor provavelmente julgou sem consequencias.

Prolongou-se este estado de cousas. O medico, a quem fora confiado o tratamento de Manoel Quentino, prudente em demasia, apenas lhe promettia esperanças de o deixar saír passada uma semana mais.

Carlos não pensava com frieza de animo no termo d'aquelle praso. Poderia, sem causar estranheza, continuar, ainda depois d'elle, as visitas que lhe eram já tão necessárias? Até alli servia-lhe o pretexto de vir dar contas a Manoel Quentino do serviço da manhã; mas depois?

Carlos continuou a ser diligente nos negocios do escriptorio. Mr. Richard ainda não acabára de conformar o espirito áquella mudança do filho.

Em casa de Manoel Quentino, só este era quem talvez não suspeitava um segundo motivo na assiduidade de Carlos. Antonia e José Fortunato já a commentavam havia muito.

E Cecilia? Respondam por mim as leitoras.