O snr. José Fortunato não gostou demasiadamente da imagem. Manoel
Quentino proseguiu:
—Aqui o amigo contou-me agora a historia de uma certa carruagem e de um certo rapaz, que Antonia lhe disse… é muito engraçada… Eh! eh! eh!
—Eh! eh! eh!—fez o snr. José Fortunato tambem—mas ficou-lhe bastante caro o entrar no duetto, visto que Cecilia o castigou, dizendo:
—Engraçada? Então é por excepção. Não é essa a principal qualidade das historias do snr. Fortunato.
José Fortunato pôz-se logo muito serio; Manoel Quentino olhou espantado para a filha.
Episodios d'estes reproduziram-se durante todo o serão d'aquella noite. Que triste não era a alegria que Cecilia affectava, ao trazer para o quarto do pae as flores, que preparára de manhã, cheia de contentamento! Lidar com flores, assim, com tanta melancolia, só quando se enfeita com ellas um tumulo. Marejava-lhe nos olhos o pezar do coração; de pouco lhe valia o sorriso nos labios. O serão acabou cêdo. Cecilia precisava de estar só; queria-se livre de todo o constrangimento, queria poder chorar, sem receio de vistas curiosas, de perguntas indiscretas, de reflexões impertinentes.
Será necessario dizer que velou toda a noite?
Levantou-se na madrugada seguinte com resolução formada.
—Eu é que era louca—pensava ella—illudi-me sem fundamento… acreditei… e por que acreditei eu?… De que me queixo?… Nem direito tenho a resentir-me. Paciencia!—dizia a meia voz, suspirando—Hei de ter força bastante para tirar esta loucura d'aqui.—E levava a mão á cabeça, e, depois de reflectir, murmurava, mais baixo ainda, descendo-a para o logar do coração:—E d'aqui nada terei que arrancar?
Manoel Quentino foi n'essa manhã para o escriptorio. A convalescença era completa, mas para o ser tambem a sua alegria seria preciso que, ao despedir-se da filha, não tivesse notado no semblante d'ella outra vez a antiga expressão dolorosa.