Os passos de muitos resentiam-se do emprego d'esta terça parte do dia.
Um dos convivas, que estivera até alli quasi sempre silencioso, tomou então o braço de Carlos e, apoiado n'elle, caminhou, com movimentos mal seguros, por o largo da Batalha, dizendo em tom confidencial e quasi commovido, estas palavras, que ia entremeiando com prolongadas aspirações no tubo do volumoso cachimbo.
—Carlos, tu és meu amigo; talvez o único amigo que eu tenho… Por isso vou confiar de ti a ultima das impressões que eu revelei em verso… Eu gósto de fallar d'isto só com quem me entenda. Os poetas precisam de um coração para ecco. Almas de sensitiva…
Apesar da intimidade, em que ia feita a confidencia, muitos dos que a ouviram acercaram-se d'elle, porque tinha certa nomeada o engenho poetico e improvisador do que fallava assim.
Alguns porém já tinham travado conhecimento com varias mascaras desgarradas, que encontravam caminho do theatro. Dois seguiam cantando a plenos pulmões o duetto da Lucia:
O' sole più rapido a sorger t'apresta
O poeta confidencial principiou a recitar com certo enthusiasmo quasi selvagem, o seguinte hymno ao tabaco, o qual, devemos confessar, não era muito para produzir ecco nos corações:
No centro dos circulos
De nuvens de fumo,
Um deus me presumo,
Um deus sobre o altar!
Nem d'outros thuribulos
Me apraz tanto o incenso,
Como o d'este immenso
Cachimbo exemplar!
Em divans esplendidos,
Cruzadas as pernas,
Fuma, horas eternas,
O ardente Sultão.
Subindo-lhe ao cerebro
O magico aroma,
Esquece Mafoma,
Houris e Alcorão.
Longe, oh! longe o opio,
Que os sonhos deleita
Da misera seita
Dos Theriakis!
Horror ao narcotico
Que vem das papoulas!
E ao que arde em caçoulas,
No altar do Caciz!