—Carlos—disse elle—o senhor abusou da confiança do homem que lhe abriu sem hesitar as portas de sua casa; o senhor zombou cruelmente d'estes cabellos brancos, que foram creados em serviço honrado e sem vergonha; o senhor esmagou o coração que se lhe abrira, como o de um pae… o senhor é… é um infame!

Quem visse a postura e o rosto de Carlos julgaria verdadeira a accusação. Surprendido inesperadamente por ella, faltou-lhe a reacção para repellil-a.

Mr. Whitestone, ao escutar as ultimas palavras de Manoel Quentino, empallidecera, phenomeno raro n'elle, e que se julgaria irrealisavel.—Cêdo porém o sangue reagiu contra a repressão que o expellira das faces, e affluiu com maxima intensidade a ellas. Os olhos, brilhando com fulgor extraordinario, não se desviavam do filho, como á espera de vel-o protestar contra aquella grave accusação.

Jenny, erguendo a cabeça, por um movimento cheio de dignidade, adiantou-se na sala. Subira-lhe tambem ás faces um rubor de impaciencia, vendo o irmão emmudecer perante uma accusação, que ella sabia ser injusta.

Com fogo no olhar e vivacidade na voz, que eram pouco do caracter d'ella, disse, dirigindo-se a Manoel Quentino:

—Manoel Quentino, acaba de fazer uma accusação, que o deshonra, porque é falsa.

O velho guarda-livros voltou-se para Jenny, e em lucta entre a duvida e a esperança, perguntou anciosamente:

-Falsa?

—Sim, falsa;—repetiu Jenny com firmeza—tão falsa, como cruel! Eu sei o que a motiva…. Mas se, em dezoito annos de convivencia com Cecilia,—que são todos os que ella tem de vida,—Manoel Quentino aprendesse a conhecel-a, se depositasse mais fé nos nobres sentimentos d'aquelle coração, que é obra sua, se tivesse mais confiança na sua propria filha, hesitaria sempre ao accusal-a, e não viria aqui soltar essas expressões que a poderiam perder, embora innocente…

A porta da sala, em que Cecilia ficára, abriu-se, e a filha de Manoel Quentino appareceu, pallida e sobresaltada, porque tinha reconhecido a voz do pae e suspeitado tudo.