Mr. Morlays grunhiu um monosyllabo imperceptivel e esvasiou até á ultima gotta o calix, que tinha defronte de si.

—Então cante Mr. Morlays—insistiu Mr. Richard, sem grandes esperanças do convite ser aceito.

Contra a espectativa geral, o sorumbatico inglez levantou-se e enfiando as mãos nos bolsos do collete, pronunciou, era tom funebre, o nome da canção que se propunha a cantar.

The old saxton—o velho cóveiro—de Park Benjamin.

Mr. Brains fez um gesto de arripiado. Mr. Morlays, imperturbavel, principiou cantando.

Eis o sentido da canção que elle, com exquisito tacto da opportunidade, julgou dever escolher:

«Junto de uma sepultura, cavada de pouco, estava o velho cóveiro, encostado á enxada, já gasta pelo uso. Tinha terminado a tarefa e parára á espera do cortejo funeral que transpunha n'aquelle momento a porta aberta do cemiterio. Era uma relíquia do tempo passado este velho! Os cabellos estavam-lhe tão brancos, como a espuma do mar; e dos labios tremulos saíam-lhe, em voz submissa, estas palavras:—Venham venham! que eu os guardo todos! Eu os guardo todos!

Sim, eu os guardo! Para homens e para creanças, anno após anno, uns de pezares, outros de alegrias, edifiquei essas casas que por ahi jazem em torno, em cada recanto d'este funereo terreno. Mãe e pae, filhos e filhas, um por um, vieram acolher-se á minha solidão. Mas, ou estranhos ou parentes, venham! venham! que eu os guardo todos! Eu os guardo todos!

Sim, eu os guardo! Muitos estão commigo, e comtudo estou só! Eu sou o rei dos mortos! Meu throno faço-o de um sepulcro de pedra ou de frio marmore, e o meu sceptro de commando é a enxada, que empunho. Todos os homens são meus vassallos, quer cheguem da choupana, quer cheguem das salas, todos, todos, todos! Agitem-se embora na ancia do prazer ou na ancia do trabalho! Venham! venham! que eu os guardo todos! Eu os guardo todos!

Sim, eu os guardo! Seu leito final é aqui; aqui debaixo, no escuro seio da terra.»—«E o cóveiro calou-se, porque o cortejo funeral passava silenciosamente n'aquella planicie. E eu disse commigo: Ao findar dos seculos, uma voz, mais poderosa do que a d'este velho cóveiro, bradará mais alto do que o tremendo clangor da trombeta final: Venham! venham! que eu os guardo todos! Eu os guardo todos!»