A surpreza do velho augmentou, quando a este primeiro se succedeu outro e quando todos os que n'aquella manhã entravam no escriptorio pareciam apostados a reproduzir, com pequenas variantes, phrases iguaes de louvor.
A consideração que Mr. Whitestone gosava na Praça fizera com que por toda ella se espalhasse com rapidez a fama dos serviços prestados por Manoel Quentino, a quem o honrado inglez, fiel ás promessas que fizera a Jenny, exaltou com uma vehemencia de phrase e de expressão, pouco habitual á sua fleugma britannica, e que por isso mesmo leve dobrado effeito.
Como sempre acontece, á medida que a noticia se transmittia, ampliavam-se os serviços de Manoel Quentino. A opinião publica, que até então nem attentára n'elle, suppondo-o um ente inteiramente nullo, soffreu um d'estes reviramentos subitos, de que por certo os leitores hão de conhecer exemplos.
Em um grupo de negociantes, estacionados no passeio da rua dos Inglezes, discutiu-se toda a manhã Manoel Quentino. Um insistia em dar a entender aos collegas que havia muito adivinhára o homem; outro proclamava-o já o primeiro guarda-livros do Porto; outro fazia valer o seu profundo conhecimento da lingua ingleza; outro a sua perfeição calligraphica; outro a sua actividade, o seu desembaraço em operações e escripta commerciaes, e a sua longa pratica, etc., etc.
—Disse-me ha pouco Mr. Whitestone—acrescentou a isto tudo um barão—que o homem tem já o seu peculio bem bonito.
Mr. Whitestone não se esquecera d'esta parte do plano de Jenny.
—Que duvida!—disseram alguns.
—Sabem o que alli está?—fez notar um brazileiro—É um bom director de banco.
—E olhe que é verdade.
Esta opinião prova a que ponto subira, em poucas horas, o credito de Manoel Quentino. Julgal-o apto para director de um banco era o mais alto grau a que podia eleval-o o conceito publico. Tal foi o effeito do artificio de Jenny.