«Tudo está salvo, minha boa mãe. A generosidade do snr. Carlos livrou-me da deshonra. Resta-me o dever da regeneração, que sinto agora mais vivo do que nunca.»

—E agora diga, minha senhora, devo accusar meu proprio filho? Não era por mim que elle se perdia? E devo pagar-lhe assim? É de justiça, bem sei; mas… perdôe-me se me falta a coragem. Não desculpará esta fraqueza a uma mãe?

Jenny abraçou-a com ternura.

—Tranquillise-se, minha senhora. Não é a esse coração que eu pedirei tal sacrificio. Deus me inspirará algum meio de valer a todos. Sinto-me agora com força para tudo.

—Pobre Paulo! O muito amor que me tem foi que o levou áquillo. Ainda hoje sente remorsos tão vivos!… Elle bem faz por se alegrar, mas… conheço que lhe peza esta pena dentro da alma. «Se eu fosse só—disse-me elle ha dias—se a minha desgraça não podesse cair sobre a cabeça de mais ninguem, eu já teria confessado tudo! Envergonho-me de mim mesmo, quando penso no meu silencio.» E eu, senhora, que abençoaria a hora, em que espontaneamente elle o confessasse, não tenho coragem para dizer-lhe: Falla! Parece-me quasi uma ingratidão… Era como se eu propria, sabendo que elle se deshonrára por mim, o apontasse deshonrado aos olhos dos outros.

Jenny consolou a pobre mãe e prometteu-lhe não revelar a alguem o que d'ella acabára de saber.

Saíu d'alli com a alegria no coração a generosa irmã de Carlos.

De caminho ia pensando na maneira de proceder para patentear ao pae a innocencia de Carlos, sem trahir a confiança, que a mãe de Paulo depositára n'ella.

De subito acudiu-lhe uma ideia, que a fez sorrir. E, em vez de voltar para casa, como tencionava, deu ordem para que a conduzissem ao escriptorio da rua dos Inglezes.

Mr. Richard, que passeiava na Praça, vendo chegar a filha, aproximou-se d'ella sorrindo.