—Vá,—disse Jenny—diga a Charles que eu o espero na bibliotheca.

Carlos dormia tranquillamente, quando o velho André lhe entrou no quarto. A respiração profunda, pausada e regular denunciava um somno, livre de pesadelos e de sonhos importunos.

O criado, depois de escutar algum tempo aquelle som, unico que, com o do bater da pendula vizinha, se percebia no quarto, caminhou com precaução, bem escusada a quem vinha para despertar, até uma das janellas, que entreabriu.

Espalhou-se então no aposento uma meia claridade, coada através das longas cortinas que, soltas das abraçadeiras douradas, rojavam pelo tapete.

Pôde então o velho observar a completa desordem que ia n'aquella sala.

Estes raios de luz, menos felizes do que os evocados pelo fiat lux do Genesis, póde dizer-se que vieram ainda illuminar um cháos; pois difficilmente se encontraria mais apropriada expressão para designar o aspecto do aposento, a cuja vista se dissolveu em sorrisos toda a sisuda gravidade, desenhada nos labios e nas feições do mordomo.

A scena, de facto, escapa á mais esmiuçadora descripção.

Parecia que todos os objectos, alli contidos, haviam, durante a noite, entrado em dança phantastica, de tal sorte os surprendera o dia, deslocados da natural situação.

As cadeiras, amontoadas em desordem no meio da sala, haviam usurpado as attribuições dos guarda-roupas; estes, abertos de par em par, patenteavam o interior desordenado e quasi vazio, como após um saque de cidade conquistada.

Nas mesas, nos sofás, em voltaires, no chão, por toda a parte emfim, menos nos logares competentes, via-se casacos, coletes, calças, mantas de differentes côres e feitios. O pavimento achava-se literalmente alastrado de objectos de impossivel enumeração; aqui, umas luvas, calçadas pela primeira vez na vespera e já postas de lado como inuteis; alli, alguns ramos de flores desfolhadas e murchas, cuja posse, procurada talvez com incansavel insistencia, trouxe depressa após si o abandono e o esquecimento; n'outros pontos, charutos meio consumidos, os fragmentos de uma preciosa jarra de porcelana da India, um livro, que commettera o delicto de não excitar a curiosidade, uma cadeira derrubada com o fardo que lhe pesou sobre o espaldar; cartas, collarinhos, retratos, lenços, chicotes. As esporas no logar do relogio; este pousado na beira do marmore do fogão; sobre o leito, um dominó de setim; pendente á cabeceira, o jornal da vespera e um longo cachimbo com tubo de gutta-percha; aos pés polvorinho de caça, o robe-de-chambre de damasco e o teliz da horsa favorita; no velador, um tinteiro de prata, transformado em cinzeiro de charutos; um chapéo pendurado na chave da porta; o candieiro no chão, alguns livros e mappas geographicos quasi debaixo da cama. Um abat-jour de cartão envernizado com figuras extravagantes, representando chins em posições todas chinezamente ridiculas, servia de barrete ao busto de Shakespeare, cujo pescoço estava além d'isso diplomaticamente enfeitado com uma gravata de baile; defronte, Byron, coberto com chapéo de feltro de abas largas, o qual lhe pendia galhardamente sobre a orelha esquerda, parecia fitar com petulancia o seu illustre conterraneo; no outro angulo, era aquella figura séria e bondosa de sir Walter Scott, com não sei que ares de acanhado debaixo do barrete turco, que a guerra da Crimeia pozera então á moda; e finalmente um quarto busto occultava, sob mascara de setim preto, a expressão de candura e de soffredora tristeza do cantor dos combates dos anjos e demonios, o sublime Milton.