Vêem-se homens de aspecto grave, de movimentos pausados, de palavras medidas e espremidas, escutados, aqui e além, por um auditorio attento, mudo, boquiaberto, cujas cabeças, balançando-se, como as dos bonecos de porcelana, commentam com movimentos de approvação as palavras d'estes oraculos;—são directores de bancos, ou de companhias commerciaes de outra qualquer natureza, bem ou mal reputados as primeiras capacidades da Praça; os accionistas, sempre inquietos pelo seu futuro dos capitaes, meditam cada palavra d'elles, como as de uma mensagem de Napoleão III, na abertura do parlamento francez.
Mais longe, passeiam, com ar de quem está confiado em si, outros que não escutam os primeiros, mas que os saudam com fraternal familiaridade. Não teem tão numeroso cortejo a rodeial-os, porém são igualmente cumprimentados por todas as cabeças da Praça; chamam aos labios das pessoas, a quem se dirigem, um sorriso de affabilidade, e obrigam-lhes o tronco á inclinação expressiva de acatamento, pouco differente da eloquencia persuasiva, a qual, segundo um escriptor humorista, é representada por o angulo de 85º 1/2 com o horizonte.—São estes os negociantes, que não administram capitaes alheios, mas que dispõem de grandes capitaes proprios; de quem menos directamente depende portanto a numerosa turba dos pequenos capitalistas, mas cujos destinos influem, mais ou menos, sobre os de toda a Praça. Além d'isso teem a fazel-os valer o prestigio da riqueza, prestigio que se impõe até aos que nada esperam d'ella.
Observa-se ás vezes um espectaculo, á primeira vista de difficil interpretação. Um homem, humildemente vestido, de aspecto triste, de cabeça baixa e barbas crescidas, é escutado com anciedade na roda dos mais esplendidos membros do corpo commercial; todos parecem esforçar-se por não perder a menor palavra das poucas e sumidas, que o tal homem pronuncia. De vez em quando, elle murmura não sei que phrase e limpa ou faz que limpa uma lagrima, e os outros levantam as mãos ao céo, cruzam os braços, encolhem os hombros, coçam a cabeça, dão uma volta, como a distrahir mágoas, e tornam a acercar-se d'elle, como se fosse o centro de attracção d'aquelles elementos dispersos; e toda a scena se produz de novo. Que quer dizer isto?—É um negociante fallido de pouco e rodeiado de credores, a quem, na sua humiliação, domina e que, de quando em quando apavora, calculando com voz dolente o diminuto dividendo que lhes concederá. Não ha posição social, situação na vida, por mais abjecta e precaria que pareça, que não tenha a sua aristocracia. Os ladrões teem os monarchas conquistadores; os homicidas, os duellistas e guerreiros; a pobre, a opprimida, a miseravel classe dos devedores, tem os grandes negociantes fallidos.
O olhar exercitado em estudar a physiologia da praça talvez possa distinguir do negociante, cujos pagamentos ainda em época alguma foram suspensos, aquelles, cujas remotas fracturas teem sido miraculosamente consolidadas pelos dotes das esposas. Mas a segurança e franqueza de maneiras é tão igual nas duas especies, que á nossa analyse não é possivel a discriminação.
A contrastar com todos estes, vê-se uma turba, igualmente numerosa, agitar-se na Praça, sempre a passo rapido, rapazes pela maior parte com papeis, saccas ou amostras na mão; sáem de um portal para entrar em outro; descem a calçada do Terreiro em direcção á alfandega, ao caes ou a bordo de algum navio mercante; consultam os individuos dos grupos, que já mencionamos, ou aguardam pacientes que elles os descubram e interroguem; dirigem-se-lhes então, tirando o chapéo—attenção nem sempre retribuida—; são estes os segundos caixeiros, os chamados «de fóra», os praticantes de escriptorio, os cobradores, e ainda os despachantes; aquelles, emfim, sobre quem mais pesada se exerce a carga da vida do commercio e que menos proventos auferem d'ella. Distinguem-se pelo grau de velocidade dos passos; a dos despachantes chega a ser incommoda de ver-se.
É digna de nota tambem a posição que tomam mais ordinariamente os dois interlocutores dos curtos dialogos, que a cada momento se travam no meio da rua, entre os representantes das diversas hierarchias sociaes, que se dizem—caixeiro e patrão—. O caixeiro está perfilado, com a mão na aba do chapéo e os olhos fitos nos labios do negociante; este responde-lhe, olhando para o lado e, ás vezes, sorrindo até para um collega, que de longe falla por acênos—distracção perigosa para a clareza da ordem dada, mas cujas consequencias são attribuidas depois a quem a recebeu; os patrões mais accessiveis levam a sua bondade a ponto de puxarem por o botão do casaco, ou de desapertarem o do collete do subordinado, emquante lhe dão instrucções. Quando o caixeiro expõe o resultado da commissão que executou, é-lhe permittido o accionado, mórmente se, na execução d'ella, houve a vencer a renitencia de algum devedor emerito, circumstancia, na qual póde até tentar um epigramma, com a certeza de que agradará. Porém quando são mais modestos os ares do caixeiro e mais impertinentes os do patrão, é quando o segundo está sendo convencido por o outro de um erro, que repugna ao seu amor-proprio confessar.
Ha ainda outra classe, tambem inquieta, apressada, incansavel, porém muito longe das disposições para a reverencia d'esta ultima, em que fallamos. Ha nas suas cortezias rasgadas alguma cousa de artificial, que não illude ninguem, e ás vezes a menos ceremoniatica familiaridade substitue até essas apparencias de respeito. São espantosos de tenacidade a perseguirem em certos casos o commerciante, que em vão tenta fugir-lhes; passam-lhe da esquerda para a direita, da direita para a esquerda; atravessam-se-lhe no caminho; entram com elle nos portaes, sobem com elle as escadas, invadem-lhe o ádito dos escriptorios, transpõem a barreira dos mostradores, encostam-se sem ceremonia ás escrivaninhas, batem-lhe amigavelmente nos hombros, collocam-lhe diante dos olhos garrafas, vidros, massos de fazenda, tabellas de preços, amostras de todos os generos commerciaveis, de que andam constantemente munidos e a custo se resolvem a soltar das mãos a victima, que chegaram a atacar.—São estes os corretores e agentes de casas estrangeiras.
A classe dos primeiros guarda-livros é a porção aristocratica d'esta bureaucracia ou escriptoriocracia commercial. Mostra-se principalmente á janella dos primeiros andares, onde vem, de vez em quando, descansar das fadigas de uma escripturação. De ordinario, conservam a penna entre os dedos, como para significar que é momentanea a pausa—o que nem sempre succede. Mais necessarios, e porisso mais apreciados e attendidos, gosam já de certas franquias e privilegios entre os da sua classe. É-lhes concedido fallarem da janella para a rua com algum collega ou amigo que passa; a alguns até se permitte fumar na varanda um charuto, e ausentarem-se algum tempo do escriptorio sem prévia requisição; na rua, saudam mais desassombrados os patrões e são menos distrahidamente correspondidos por estes.
Acrescente-se agora a progenie ociosa dos grandes capitalistas—commerciantes honorarios, cuja vida commercial se reduz, como a de Carlos, a passeiar na Praça até ás quatro horas da tarde; o brazileiro retirado, distrahindo-se a presenciar, como espectador, o labutar do negocio, á maneira da maritimo velho que se senta á beira-mar a olhar para as ondas, de que vive arredado já; acrescente-se ainda o empregado da alfandega, fumando o cigarro, nas frequentes entreabertas de descanso de suas laboriosas manhãs; os carrejões em disponibilidade, estacionados a cada esquina; os moços de escriptorio encostados ás ombreiras das portas: os meninos dos directores de companhias, confiados á vigilancia de algum empregado subalterno; isto tudo composto de inglezes ruivos, de allemães louros, de brazileiros escuros, de portuguezes de todas as côres, e ter-se-ha imaginado o aspecto da Praça commercial do Porto, á hora em que Carlos Whitestone a atravessou.
Carlos passava pelos differentes grupos alli reunidos como por entre gente, que toda lhe era igualmente familiar.