Quem não se quiz curvar á vossa tyrannia
Tem de gemer alli em funebre masmorra,
Liberdade, Egualdade, isso é uma utopia
É vosso o mundo inteiro, e quem protestar: morra!
Ó como é triste e vil, o mundo, a humanidade
Quando não quer subir ao solio da bondade.
Onde tendes matrona, o coração sensivel
Proprio d'um peito bom, que tem ao rigor asco
Que dicta uma sentença ignobil e terrivel
Com toda a placidez d'um cynico carrasco.
Onde guardaes essa alma, escura, empedernida,
Que incensando o rigor dispõe de muita vida?…

Remirando os galões, bonitos reluzentes,
Onde a vaidade pôz scintilações a rôdos,
Julgae-vos superior a todos os mais entes
Nascidos como vós, mortaes como nós todos.
E senhora feudal, ó velha Disciplina
Cravaes a garra adunca, a tetrica assassina!

Lá vão tristes viver em lugubres prisões
Em climas de matar os pobres marinheiros,
Annos a soluçar na febre das paixões,
As saudades dos seus, o amor dos companheiros.
Condemnados, porquê? Por terem dignidade.
O espirito do bem, da solidariedade!

E vós, velha matrona a rir como perdida
Talvez inda acheis pouco o rude soffrimento;
Onde é que vos guardaes ó velha delambida
As mais simples noções do humano sentimento?
Não póde haver autopsia ao vosso coração…
Ó velha Disciplina, ó estupido chavão!

Emquanto o povo inteiro, os peitos soluçantes
Esperava de vós um acto de justiça,
De codigo na mão os olhos coruscantes
Eivada de rancor entraveis já da liça
E de bocca a espumar, terrivel colossal,
Dictaveis a sentença onde imperava o mal.

Ó velha Disciplina, ó tola potestade,
Ó funebre espantalho, ó velha rabujenta.
Deixae essa «imposant» de grande magestade
Que no seculo vinte é triste e não se aguenta.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
A cova está aberta, entrae ó Disciplina,
Cavou-a esse rigor: morrei ó assassina!