Aquela família...
A princípio eu ia só, numa carruagem de segunda, o que me permitia desfrutar o panorama e gozar uma relativa comodidade. Mas mais adiante, numa estação qualquer, mal o comboio parou, a portinhola abriu-se e o meu compartimento foi invadido de assalto por uma família inteira que atravancava tudo: rêdes, bancos, o menor espaço disponível, com malas, embrulhos e cestinhos,—uma infinidade de volumes!
O chefe do rancho era um homem nédio, sanguíneo, que rebocava uma senhora pesada (onde eu adivinhei a espôsa) e mais duas raparigas e um garoto, de marinheiro, magrinho, linfático e triste.
Auxiliei-os. Fiz menção de ajudar as damas[{8}] a subir. E quando a máquina apitou e o trem se pôs em marcha com um ranger de molas e de engates, ainda nós todos dispúnhamos a bagagem amontoada nas proporções dum Himalaia.
Agradeceram, muito penhorados; e depois de instalados convenientemente, o dono de tudo aquilo, que limpava com um lenço enorme as bagas de suor, pediu-me licença para tirar o casaco e envergar o guarda-pó.
—Parece que estamos no Congo! justificou. Este calor está mesmo a exigir tanga...
Eu sorri, relanceando um olhar às donzelas, que sorriram tambêm, ruborizadas, daquela ideia africana do papá. E êste, farejando em mim uma índole comunicativa, inquiriu satisfeito:
—O cavalheiro vem de Lisboa?
—Não senhor. Eu sou da Beira.
—Da Beira!... Então é de Vizeu?