—Por causa do silêncio!
D. Leonor vivia com a filha, Maria Cândida,—a Candidinha—que andava agora nos dezoito anos e ainda engatinhava quando o pai morreu de congestão cerebral. Reunia aos[{95}] sábados. Iam quase sempre o juiz da comarca e a mulher; o sr. Xavier—o Xavier das massas—solteirão abastado e artrítico; o dr. Marim e às vezes uma D. Josefina, tambêm viuva, que fôra operada por êle duma doença d'útero. Tudo gente de idade. Maria Cândida aborrecia-se daquela vida. A mãe andava sempre a dizer-lhe:
—Que cara que tu trazes, rapariga! Nem parece que te lus o que comes. Endireita-te! Que há de dizer a outra gente.
O dr. Marim tinha um facataz pela pequena. Achava-a esperta, interessante, em tudo revelando um carácter diferente da vulgaridade. Dedicára-se-lhe por isso com um entranhado amor de pai, em certas ocasiões surpreendendo-se a chamá-la, a acarinhá-la como se ela rialmente fôsse do seu sangue... Tambêm, a cachopinha, logo de tenra idade correspondia àquele amor; e quando o médico, a brincar, lhe perguntava se queria ir com êle, fugir da mãe para longe, a petiza saltava-lhe ao pescoço, a cobri-lo de beijos, sem dizer palavra,—lá no fundo a desejar que êle a[{96}] levasse... D. Leonor sorria; intimamente porêm desgostava-se. Desenvolveu-se à pressa, espigou dum dia para o outro, Maria Cândida. Todos diziam:—«Está uma senhora!» E deu então em andar triste, murchita, nervosa, a ponto de a mãe se alarmar, perguntando ao médico o que seria. O médico ria-se, receitava:
—Banhos... Água p'ra cima daqueles nervos! E deixe-a saír, não a prenda em casa, que estas idades querem sol...
Maria Cândida tinha-lhe dito um dia:
—A mamã quer-me para freira, não há dúvida. Tem medo que eu saia, proíbe-me que chegue a uma janela, não me deixa mecher se não nos livros do tio Cerdeira, que são todos em latim. É pior!
O médico ficou a ruminar a gravidade daquele comentário; «é pior!»; distraindo o olhar pela variada, profusa, quase incongruente decoração da sala, onde D. Leonor recebia aos sábados. A rapariga tinha rasão: educar, pensava êle, é formar seres conscientes, livres, não é torcer aptidões e tendências[{97}] naturais por forma a amoldá-las ao próprio interesse de quem educa. Dizer a alguêm: «has de ser isto ou has de ser aquilo, porque eu quero, porque convêm, porque é assim», e não admitir sequer que êsse alguêm raciocine, ou sinta, ou queira doutro modo,—é um absurdo. Tão grande como se uma pessoa que tivesse fome em dado momento, exigisse dos mais, no mesmo instante, a mesma vontade de comer...
O médico, por fim, demorou os olhos sôbre um enorme quadro exposto numa das paredes do fundo, que representava um trecho de paisagem oriental: palmeiras, filas de camelos pensativos e gibosos; e um beduino barbinêgro, prosternado, osculando o solo poeirento, onde poisára o cajado de larga crossa e as babuchas de palha de arroz...
O dr. juiz nunca via aquilo que não exclamasse:—Lindo!—e encavalava a luneta para ler o nome do autor, que lhe esquecia sempre.