O CLIENTE, presuroso:

Perdão... Eu ainda não disse a V. Ex.ª o que desejo. (Pausa). Eu me explico: Sou um homem honrado, nunca roubei nada a ninguêm, mas sou tambêm um temperamento desgraçado, um sentimental, um fraco. Não posso, por exemplo, ver sangue. Para lhe falar com franqueza, nunca na minha vida—e já tenho cincoenta anos—peguei numa arma! Isto tudo vem para lhe explicar o motivo porque não matei minha mulher ontem à noite quando entrei em casa e a vi com êle, em doce colóquio amoroso, mais que amoroso! sôbre um canapé de estimação...

O ADVOGADO, interessado:

Sim senhor.

O CLIENTE

Ora porque sou um homem honrado, respeitador das leis e dos costumes, preciso evidentemente[{117}] dar uma satisfação ao mundo, que seja, ao mesmo tempo, uma satisfação à minha consciência. Posta de parte, pois, a ideia duma solução violenta, resta-me, claro, essa a que V. Ex.ª se referiu há pouco, isto é—o divorcio.

O ADVOGADO, interessadíssimo:

Sim senhor...

O CLIENTE

Mas o senhor não sabe—porque não é casado—o que são vinte e tantos anos passados com uma mulher...