Tambem, ao partir, o Velho do Restelo virá... E à despedida, há de dizer egoísmos, mas há de tambem prevenir os egoísmos, as ambições e as cubiças para que não aumentem com o tamanho dos mundos que lhes vão ser dados.

E o Velho sabe que a Viagem, a Epopeia, é uma obra prometaica, de «fogo de altos desejos que a movera».{17}

O homem Prometeu é o homem dando o infinito aos seus desejos, partindo para alêm dos deuses familiares, correndo o risco de ficar só e às escuras no Espaço sem fim, onde só um novo Deus de infinito amor poderá ser companhia.

Êsse homem Prometeu, perdido e vagabundo, encontrou a mão de Jesus reconduzindo-o a Deus; ¿mas quantos ainda hoje passeiam num Infinito mudo a desolada estátua de sua solidão e tristeza?

A Epopeia vai fazer-se: os portugueses partem ligando os mundos, e, ao dobrar da África, o velho do Restelo é o Prometeu português, o Adamastor petrificado, prevenindo de novo as almas das duras consequências da audácia, das dôres companheiras de toda a criação.

O Velho desejara que o fogo dos altos desejos prometaicos não tivera ardido, e profetizara com uma voz tão sábia e prevenida que bem parece ser a própria voz dum doloroso saber de experiências.

O Velho acompanha a frota e de novo. Maior, Imenso e Tormentoso, quere vedar o Mistério, conter as forças de bem e de mal que os navegadores estão prestes a libertar.

Profetiza e ameaça, mas, quando interrogado em palavras lusíadas, conta aos portugueses, ao mar e às nuvens, a tragédia esquiliana da sua aventura.

O irmão Prometeu roubara o fogo aos deuses, êle quisera furtar-lhes o amor.

A Luz prometaica iluminara os mundos, mas o Espaço regelado não fôra comovido por essa fria luz da inteligência: a candeia cristã vai purificar e aquecer essa luz e será o Amor a Grande Presença Universal, dadivosa e inexgotável.