O jantar correu mais calmo. Ricardo fez ainda algumas considerações sobre o violão. Á noite, o menestrel cantou a sua ultima producção: «Os labios da Carola». Suspeitava-se que Carola fosse uma criada do Dr. Campos; mas ninguem alludiu a isso. Ouviram-mo com interesse e elle foi muito acclamado. Olga tocou no velho piano de D. Adelaide; e, antes das onze horas, estavam todos recolhidos.

Quaresma chegou a seu quarto, despiu-se, enfiou a camisa de dormir e, deitado, poz-se a ler um velho elogio das riquezas e opulencias do Brasil.

A casa estava em silencio; do lado de fora, não havia a minima bulha. Os sapos tinham suspendido um instante a sua orchestra nocturna. Quaresma lia; e lembrava-se que Darwin escutava com prazer esse concerto dos charcos. Tudo na nossa terra é extraordinario! pensou. Da despensa, que ficava junto a seu aposento, vinha um ruido extranho. Apurou o ouvido e prestou attenção. Os sapos recomeçaram o seu hymno. Havia vozes baixas, outras mais altas e estridentes; uma se seguia á outra, num dado instante todas se juntaram num unisono sustentado. Suspenderam um instante a musica. O Major apurou o ouvido; o ruido continuava. Que era? Eram uns estalos tenues; pareciam que quebravam gravetos, que deixavam outros cahir ao chão... Os sapos recomeçaram; o regente deu uma martellada e logo vieram os baixos e os tenores. Demoraram muito; Quaresma pôde ler umas cinco paginas. Os batrachios pararam; a bulha continuava. O Major levantou-se, agarrou o castiçal e foi á dependencia da casa donde partia o ruido, assim mesmo como estava, em camisa de dormir.

Abriu a porta; nada viu. Ia procurar nos cantos, quando sentiu uma ferroada no peito do pé. Quasi gritou. Abaixou a vela para ver melhor e deu com uma enorme sauva agarrada com toda a furia á sua pelle magra. Descobriu a origem da bulha. Eram formigas que, por um buraco no assoalho, lhe tinham invadido a despensa e carregavam as suas reservas de milho e feijão, cujos recipientes tinham sido deixados abertos por inadvertencia. O chão estava negro, e carregadas com os grãos, ellas, em pelotões cerrados, mergulhavam no solo em busca da sua cidade subterranea.

Quiz afugental-as. Matou uma, duas, dez, vinte, cem; mas eram milhares e cada vez mais o exercito augmentava. Veiu uma mordeu-o, depois outra, e o foram mordendo pelas pernas, pelos pés, subindo pelo seu corpo. Não poude aguentar, gritou, sapateou e deixou a vela cahir.

Estava no escuro. Debatia-se para encontrar a porta; achou e correu daquelle infimo inimigo que, talvez, nem mesmo á luz radiante do sól, o visse distinctamente...

IV
«PEÇO ENERGIA, SIGO JÁ»

D. Adelaide, a irmã de Quaresma, tinha uns quatro annos mais que elle. Era uma bella velha, com um corpo médio, uma tez que começava a adquirir aquella patina da grande velhice, uma espessa cabelleira já inteiramente amarellada e um olhar tranquillo, calmo e doce. Fria, sem imaginação, de intelligencia lucida e positiva, em tudo formava um grande contraste com o irmão; comtudo, nunca houve entre elles uma separação profunda nem tampouco uma penetração perfeita. Ella não entendia nem procurava entender a substancia do irmão, e sobre elle em nada reagia aquelle ser methodico, ordenado e organizado, de idéas simples, medias e claras.

Ella já attingira aos cincoenta e elle para lá marchava; mas ambos tinham ar saudavel, poucos achaques, e promettiam ainda muita vida. A existencia calma, doce e regrada que tinham levado até ali, concorrera muito para a boa saude de ambos. Quaresma incubou as suas manias até depois dos quarenta e ella nunca tivera qualquer.