Apezar de popular no logar, não encontrara pessoa alguma conhecida durante os tres ultimos dias; elle mesmo evitava falar e, em sua casa, limitava-se ao «bom dia» e á «boa tarde» trocados com os vizinhos.
Gostava de passar assim dias, mettido em si mesmo e ouvindo o seu coração. Não lia jornaes para não distrahir a attenção do seu trabalho. Vivia a pensar nas suas modinhas e no seu livro que havia de ser mais uma victoria para elle e para o violão estremecido.
Naquella tarde estava sentado á meza, corrigindo um dos seus trabalhos, um dos ultimos, aquelle que compuzera no sitio de Quaresma—«Os lábios de Carola».
Primeiro, leu toda a producção, cantarolando: voltou a lel-a, agarrou o violão para melhor apanhar o effeito e empacou nestes:
É mais bella que Helena e Margarida,
Quando sorri meneando a ventarola.
Só se encontra a illusão que adoça a vida
Nos labios de Carola.
Nisto ouviu um tiro, depois outro, outro... Que diabo? pensou. Hão de ser salvas a algum navio estrangeiro. Repinicou o violão e continuou a cantar os labios de Carola, onde encontrava a illusão que adoça a vida...
[TERCEIRA PARTE]
I
PATRIOTAS
Havia mais do uma hora que elle estava ali, num grande salão do palacio, vendo o Marechal, mas sem lhe poder falar. Quasi não se encontravam difficuldades para se chegar á sua presença, mas falar-lhe, a cousa não era tão facil.