O seu enthusiasmo por aquelle idolo politico era forte, sincero e desinteressado. Tinha-o na conta de energico, de fino e supervidente, tenaz e conhecedor das necessidades do paiz, manhoso talvez um pouco, uma especie de Luiz XI forrado de um Bismarck. Entretanto, não era assim. Com uma ausencia total de qualidades intellectuaes, havia no caracter do Marechal Floriano uma qualidade predominante: tristeza de animo; e no seu temperamento, muita preguiça. Não a preguiça commum, essa preguiça de nós todos; era uma preguiça morbida, como que uma pobreza de irrigação nervosa, provinda de uma insufficiente quantidade de irrigação no seu organismo. Pelos logares que passou, tornou-se notavel pela indolencia e desamor ás obrigações dos seus cargos.
Quando director do Arsenal de Pernambuco, nem energia tinha para assignar o expediente respectivo; e durante o tempo em que foi ministro da guerra, passava mezes e mezes sem lá ir, deixando tudo por assignar, pelo que legou ao seu substituto um trabalho avultadissimo.
Quem conhece a actividade papeleira de um Colbert, de um Napoleão, de um Philippe II, de um Guilherme I, da Allemanha, em geral de todos os grandes homens de Estado, não comprehende o descaso florianesco pela expedição de ordens, explicações aos subalternos, de suas vontades, de suas vistas, certamente necessarias deviam ser taes transmissões para que o seu senso superior se fizesse sentir e influisse na marcha das cousas governamentaes e administrativas.
Dessa sua preguiça de pensar e de agir, vinha o seu mutismo, os seus mysteriosos monosyllabos, levados á altura de ditos sybillinos, as famosas encruzilhadas dos tal vezes, que tanto reagiram sobre a intelligencia e imaginação nacionaes, mendigas de heroes e grandes homens.
Essa doentia preguiça, fazia-o andar de chinellos e deu-lhe aquelle aspecto de calma superior, calma de grande homem de estado ou de guerreiro extraordinario.
Toda a gente ainda se lembra como foram os seus primeiros mezes de governo. A braços com o levante de presos, praças e inferiores da fortaleza de Santa Cruz, tendo mandado fazer um inquerito, abafou-o com medo que as pessoas indicadas como instigadoras não fizessem outra sedicção, e, não contente com isto, deu a essas pessoas as melhores e mais altas recompensas.
Demais, ninguem póde admittir um homem forte, um Cesar, um Napoleão, que permitta aos subalternos aquellas intimidades deprimentes e tenha com elles as condescendencias que elle tinha, consentindo que o seu nome servisse de labaro para uma vasta serie de crimes de toda a especie.
Uma recordação basta. Sabe-se bem sob que atomosphera de má vontade Napoleão assumiu o commando do exercito da Italia. Augereau que o chamava «general de rua», disse a alguem, após lhe ter falado: «o homem metteu-me medo»; e o corso estava senhor do exercito, sem balidellas no hombro, sem delegar tacita ou explicitamente a sua autoridade a subalternos irresponsaveis.
De resto, a lentidão com que suffocou a revolta de 6 de Setembro mostra bem a incerteza, a vacillação de vontade de um homem que dispunha daquelles extraordinarios recursos que estavam ás suas ordens.
Ha uma outra face do Marechal Floriano que muito explica os seus movimentos, actos e gestos. Era o seu amor á familia, um amor entranhado, alguma cousa de patriarchal, de antigo que já se vai esvaindo com a marcha da civilização.