Gostava muito da expressão—ás rebatinhas; usava-a a todo o momento e, guando a punha no branco do papel, imaginava que dera ao seu estylo uma força e um brilho pascalinos e ás suas idéas unia sufficiencia transcendente. De noite, lia o padre Vieira, mas logo ás primeiras linhas o somno lhe vinha e dormia sonhando-se physico, tratado de mestre, em pleno seiscentos, prescrevendo sangria e agua quente, tal e qual o Dr. Sangrado.
A sua traducção estava quasi no fim, já estava bastante pratico, pois com o tempo adquirira um vocabulario sufficiente e a versão era feita mentalmente, em quasi metade, logo na primeira escripta. Recebeu o recado da mulher, annunciando-lhe a visita, com um pequeno aborrecimento, mas, como teimasse em não encontrar um equivalente classico para orificio, julgou util a interrupção. Queria pôr buraco, mas era plebeu; orificio, se bem que muito usado, era, entretanto, mais digno. Na volta talvez encontrasse, pensou: e subiu á sala de jantar. Elle entrou prazenteiro, com o seu grande bigode esfarelado, o seu rosto redondo e encontrou padrinho e afilhada empenhados em uma discussão sobre autoridade.
Dizia ella:
—Eu não posso comprehender esse tom divino com que os senhores falam da autoridade. Não se governa mais em nome de Deus, por que então esse respeito, essa veneração de que querem cercar os governantes?
O doutor, que ouvira toda a phrase, não pôde deixar de objetar:
—Mas é preciso, indispensavel... Nós sabemos bem que elles são homens como nós, mas, se não for assim tudo vai por agua abaixo.
Quaresma acrescentou:
—É em virtude das proprias necessidades internas e externas da nossa sociedade que ella existe... Nas formigas, nas abelhas...
—Admitto. Mas ha revoltas entre as abelhas e formigas, e a autoridade se mantem lá á custa de assassinios, exacções e violencias?
—Não se sabe... Quem sabe? Talvez... fez evasivamente Quaresma.