Ricardo Coração dos Outros, desde o dia da prohibição de tocar violão, andava macambuzio. Tinham-lhe tirado o sangue, o motivo de viver, e passava os dias taciturno, encostado a um tronco de arvore, maldizendo no fundo de si a incomprehensão dos homens e os caprichos do destino. Fontes notara a sua tristeza; e, para minorar-lhe o desgosto, obrigara a Bustamante a fazel-o sargento. Não foi sem custo, porque o antigo veterano do Paraguay encarecia muito essa graduação e só a dava como recompensa excepcional ou quando requerida por pessoas importantes.
A vida do pobre menestrel era assim a de um melro engaiolado; e, de quando em quando, elle se afastava um pouco e ensaiava a voz, para ver se ainda a tinha e não fugira com o fumo dos disparos.
Quaresma sabendo que dessa maneira o posto estava bem entregue, resolveu demorar-se mais, e, após despedir-se de Albernaz, encaminhou-se para a casa do seu compadre, afim de cumprir a promessa que fizera ao general.
Coleoni ainda não decidira a sua viagem á Europa. Hesitava, esperando o fim da rebellião que não parecia estar proximo. Elle nada tinha com ella; até ali, não dissera a ninguem a sua opinião; e, se era muito instado, appelava para a sua condição de estrangeiro e mettia-se numa reserva prudente. Mas, aquella exigencia do passaporte, tirado na chefatura de policia, dava-lhe susto. Naquelles tempos, toda a gente tinha medo de tratar com autoridades. Havia tanta má vontade com os estrangeiros, tanta arrogancia nos funccionarios que elle não se animava a ir obter o documento, temendo que uma palavra, que um olhar, que um gesto, interpretados por qualquer funccionario zeloso e dedicado, não o levassem a soffrer maus quartos de hora.
Verdade é que elle era italiano e a Italia já fizera ver ao dictador que era uma grande potencia, mas no caso de que se lembrava, tratava-se de um marinheiro, por cuja vida, extincta por uma descarga das forças legaes, Floriano pagara a quantia de cem contos. Elle, Coleoni, porém, não era marinheiro, e não sabia, caso fosse preso, se os representantes diplomaticos de seu paiz tomariam interesse pela sua liberdade.
De resto, não tendo protestado manter a sua nacionalidade quando o Governo provisorio expediu o famoso decreto de naturalização, era bem possivel que uma ou outra parte se ativessem a isso, para desinteressar-se delle ou mantel-o na famosa galeria 7, da Casa de Correição, transformada, por uma pennada magica, em prisão de Estado.
A época era de susto e temor, e todos esses que elle sentia, só os communicava a filha, porque o genro cada vez mais se fazia florianista e jacobino, de cuja boca muita vez ouvia duras invectivas aos estrangeiros.
E o doutor tinha razão; já obtivera uma graça governamental. Fôra nomeado medico do Hospital de Santa Barbara, na vaga de um collega, demittido a bem do serviço publico como suspeito por ter ido visitar um amigo na prisão. Como o hospital, porém, ficasse no ilhéo do mesmo nome, dentro da bahia, em frente á Saude e a Guanabara ainda estivesse em mão dos revoltosos, elle nada tinha que fazer, pois até agora o Governo não aceitara, os seus offerecimentos de auxiliar o tratamento dos feridos.
O Major foi encontrar pai e filha em casa; o doutor tinha sahido, ido dar uma volta pela cidade, dar arrhas de sua dedicação á causa legal, conversando com os mais exaltados jacobinos do Café do Rio, não esquecendo tambem de passear pelos corredores do Itamaraty, fazendo-se ver pelos ajudantes de ordens, secretarios e outras pessoas influentes no animo de Floriano.
A moça viu entrar Quaresma com aquelle sentimento extranho que o seu padrinho lhe causava ultimamente, e esse sentimento mais agudo se tornava quando o via contar os casos guerreiros do seu destacamento, a passagem de balas, as descargas das lanchas, naturalmente, simplesmente, como se fossem feições de uma festa, de uma justa, de um divertimento qualquer em que a morte não estivesse presente.