A da Sinhá Chica, quasi gratis, ia ao encontro da população pobre, daquella em cujos cerebros, por contagio ou herança, ainda vivem os manitus e manipanços, sujeitos a fugirem aos exorcismos, benzeduras e fumigações. A sua clientela, entretanto, não se resumia só na gente pobre da terra, ali nascida ou criada; havia mesmo recem-chegados de outros ares, italianos, portuguezes e hespanhoes, que se socorriam da sua força sobrenatural, não tanto pelo preço ou contagio das crenças ambientes, mas tambem por aquella estranha superstição européa de que todo o negro ou gente colorida penetra e é sagaz para descobrir as coisas malignas e exercer a feitiçaria.
Emquanto a therapeutica fluidica ou herbacea de Sinhá Chica attendia aos miseraveis, aos pobretões, a do doutor Campos era requerida pelos mais cultos e ricos, cuja evolução mental exigia a medicina regular e official.
Ás vezes, um de um grupo passava para o outro; era nas molestias graves, nas complicadas, nas incuraveis, quando as hervas e as rezas da milagrosa nada podiam ou os xaropes e pillulas do doutor eram impotentes.
Sinhá Chica não era lá uma companheira muito agradavel. Vivia sempre mergulhada no seu sonho divino, abysmada nos mysteriosos poderes dos feitiços, sentada sobre as pernas cruzadas, olhos baixos, fixos, de fraco brilho, parecendo esmalte de olhos de mumia, tanto ella era encarquilhada e secca.
Não esquecia tambem os santos, a santa madre igreja, os mandamentos, as orações orthodoxas; embora não soubesse ler, era forte no cathecismo e conhecia a historia sagrada aos pedaços, adduzindo a elles interpretações suas e interpelações pittorescas.
Com o Appolinario, o famoso capellão das ladainhas, era ella o forte poder espiritual da terra. O vigario ficava relegado a um papel de funccionario, especie de official de registro civil, encarregado dos baptisados e casamentos, pois toda a communicação com Deus e o Invisivel se fazia por intermedio de Sinhá Chica ou do Appolinario. É de dever falar em casamentos, mas bem podiam ser esquecidos, porque a nossa gente pobre faz um reduzido de tal sacramento e a simples mancebia, por toda a parte, substitue a solemne instituição catholica.
Felizardo, o marido della, apparecia pouco em casa de Quaresma; e, se apparecia, era á noite passando os dias pelos mattos com medo do recrutamento e logo que chegava indagava da mulher se o barulho já tinha acabado.
Vivia num constante pavor; dormia vestido, galgando a janella e embrenhando-se na capoeira, á menor bulha ou vida.
Tinham dous filhos, mas que tristeza de gente! Ajuntavam á depressão moral dos paes uma pobreza de vigor physico e uma indolencia repugnante. Eram dous rapazes; o mais velho, José, orçava pelos 20 annos; ambos inertes, molles, sem força e sem crenças, nem mesmo a da feitiçaria, das rezas e benzeduras, que fazia o encanto da mãe e merecia o respeito do pae.
Não houve quem os fizesse aprender qualquer cousa e os sujeitasse a um trabalho continuo. De quando em quando, assim de quinze em quinze dias, faziam uma talha de lenha e vendiam ao primeiro taverneiro pela metade do valor; voltavam para casa alegres, satisfeitos, com um lenço de cores vivas, um vidro de agua da Colonia, um espelho, bugigangas que denunciavam ainda nelles gostos bastante selvagens.