Certa vez, quando era já Capitão Tenente, deram-lhe um embarque em Matto Grosso. Nomearam-no para commandar o couraçado «Lima Barros». Elle lá foi, mas, quando se apresentou ao commandante da flotilha, teve noticia que não existia no rio Paraguay semelhante navio. Indagou daqui e dali e houve quem aventurasse que podia ser que o tal «Lima Barros» fizesse parte da esquadrilha do Alto-Uruguay. Consultou o commandante.

—Eu, no seu caso, disse-lhe o superior, partia immediatamente para a flotilha do Rio Grande.

Eil-o a fazer malas para o Alto-Uruguay, onde chegou emfim, depois de uma penosa e fatigante viagem. Mas ahi tambem não estava o tal «Lima Barros». Onde estaria então? Quiz telegraphar para o Rio de Janeiro, mas teve medo de ser censurado, tanto mais, que não andava em cheiro de santidade. Esteve assim um mez em Itaqui, hesitante, sem receber soldo e sem saber que destino tomar. Um dia lhe veiu a idéa de que o navio bem poderia estar no Amazonas. Embarcou na intenção de ir ao extremo norte e quando passou pelo Rio, conforme a praxe, apresentou-se ás altas autoridades da Marinha. Foi preso e submettido a conselho.

O «Lima Barros» tinha ido a pique, durante a guerra do Paraguay.

Embora absolvido, nunca mais entrou em graça dos ministros e dos seus generaes. Todos o tinham na conta de parvo, de um commandante de opereta que andava á cata do seu navio pelos quatro pontos cardeaes. Deixaram-n'o encostado, como se diz na gyria militar, e elle levou quasi quarenta annos para chegar de Guarda-Marinha a Capitão de Fragata. Reformado no posto immediato, com graduação do seguinte, todo o seu azedume contra a Marinha se concentrou num longo trabalho de estudar leis, decretos, alvarás, avisos, consultas, que se referissem a promoções de officiaes. Comprava repertorios de legislação, armazenava collecções de leis, relatorios, e encheu a casa de toda essa enfadonha e fatigante literatura administrativa. Os requerimentos, pedindo a modificação da sua reforma, choviam sobre os ministros da Marinha. Corriam mezes o infinito rosario de repartições e eram sempre indeferidos, sobre consultas do Conselho Naval ou do Supremo Tribunal Militar. Ultimamente constituira advogado junto á justiça federal e lá andava elle de cartorio em cartorio, acotovelando-se com meirinhos, escrivães, juizes e advogados—esse poviléo rebarbativo do fôro que parece ter contrahido todas as miserias que lhe passam pelas mãos e pelos olhos.

Innocencio Bustamante tambem tinha a mesma mania demandista. Era renitente, teimoso, mas servil e humilde. Antigo voluntario da patria, possuindo honras de Major, não havia dia em que não fosse ao quartel general ver o andamento do seu requerimento e de outros. Num pedia inclusão no Asylo dos Invalidos, noutro honras de Tenente-Coronel, noutro tal ou qual medalha; e, quando não tinha nenhum, ia ver o dos outros.

Não se prezou mesmo de tratar do pedido de um maniaco que, por ser tenente honorario e tambem da Guarda Nacional, requereu lhe fosse passada a patente de major, visto que dous galões mais outros dous fazem quatro—o que quer dizer: Major.

Conhecedor dos estudos meticulosos do Almirante, Bustamante fez a sua consulta.

—Assim de prompto, não sei. Não é a minha especialidade o Exercito, mas vou ver. Isto tambem anda tão atrapalhado!

Acabando de responder coçava um dos seus favoritos brancos que lhe davam um ar de commodoro ou de chacareiro portuguez, pois era forte nelle o typo luzitano.