Justamente algumas semanas antes do pedido de casamento, ao abrir-se a sessão da Camara, o Secretario teve que proceder á leitura de um requerimento singular e que veiu a ter uma fortuna de publicidade e commentario pouco usual em documentos de tal natureza.
O borborinho e a desordem que caracterizam o recolhimento indispensavel ao elevado trabalho de legislar, não permittiram que os deputados o ouvissem; os jornalistas, porém, que estavam proximo á mesa, ao ouvil-o, proromperam em gargalhadas, certamente inconvenientes á magestade do logar. O riso é contagioso. O Secretario, no meio da leitura, ria-se, discretamente; pelo fim, já ria-se o Presidente, ria se o official da acta, ria-se o continuo—toda a mesa e aquella população que a cerca, riram-se da petição, largamente, querendo sempre conter o riso, havendo em alguns tão franca alegria que as lagrimas vieram.
Quem soubesse o que uma tal folha de papel representava de esforço, de trabalho, de sonho generoso e desinteressado, havia de sentir uma penosa tristeza, ouvindo aquelle rir inoffensivo diante della. Merecia raiva, odio, um deboche de inimigo talvez, o documento que chegava á mesa da Camara, mas não aquelle recebimento hilarico, de uma hilaridade innocente, sem fundo algum, assim como se estivesse a rir de uma palhaçada, de uma sorte de circo de cavallinhos ou de uma careta de clown.
Os que riam, porém, não lhe sabiam a causa e só viam nelle um motivo para riso franco e sem maldade. A sessão daquelle dia fôra fria; e, por ser assim, as secções dos jornaes referentes á Camara, no dia seguinte, publicaram o seguinte requerimento e glosaram-no em todos os tons.
Era assim concebida a petição:
«Polycarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funccionario publico, certo de que a lingua portugueza é emprestada ao Brasil; certo tambem de que, por esse facto, o falar e o escrever em geral, sobretudo no campo das lettras, se vêm na humilhante contigencia de soffrer continuamente censuras asperas dos proprietarios da lingua; sabendo, além, que, dentro do nosso paiz, os autores os escriptores, com especialidade os grammaticos, não se entendem no tocante á correcção grammatical, vendo-se, diariamente, surgir azedas polemicas entre os mais profundos estudiosos do nosso idioma—usando do direito que lhe confere a Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o tupy-guarany, como lingua official e nacional do povo brasileiro.
O supplicante, deixando de parte os armamentos historicos que militam em favor de sua idéa, pede venia para lembrar que a lingua é o mais alta manifestação da intelligencia de um povo, é a sua creação mais viva e original; e, portanto, a emancipação política do paiz requer como complemento e consequencia a sua emancipação idiomatica.
Demais, Srs. Congressistas, o tupy-guarany, lingua originalissima, agglutinante, é verdade, mas que o polysynthetismo dá multiplas feições de riqueza, é a unica capaz de traduzir as nossas bellezas, de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se perfeitamente aos nossos orgãos vocaes e cerebraes, por ser creação de povos que aqui viveram e ainda vivem, portanto possuidores da organização physiologica e psychologica para que tendemos, evitando-se dessa fórma as estereis controversias grammaticaes, oriundas de uma difficil adaptação de uma lingua de outra região á nossa organização cerebral e ao nosso apparelho vocal—controversias que tanto impecem o progresso da nossa cultura literaria, scientifica e philosophica.
Seguro de que a sabedoria dos legisladores saberá encontrar meios para realizar semelhante medida e conscio de que a Camara e o Senado pezarão o seu alcance e utilidade P. e E. deferimento».
Assignado e devidamente estampilhado, este requerimento do Major foi durante dias assumpto de todas as palestras. Publicado em todos os jornaes, com commentarios facetos, não havia quem não fizesse uma pilheria sobre elle, quem não ensaiasse um espirito á custa da lembrança de Quaresma. Não ficaram nisso; a curiosidade malsã quiz mais. Indagou-se quem era, de que vivia, se era casado, se era solteiro. Uma illustração semanal publicou-lhe a caricatura e o Major foi apontado na rua.
Os pequenos jornaes alegres, esses semanarios de espirito e troça, então! eram «de um encarniçamento atroz com o pobre Major. Como uma abundancia que marcava a felicidade dos redactores em terem encontrado um assumpto facil, o texto vinha cheio delle: o Major Quaresma disse isso; o Major Quaresma fez aquillo.
Um delles, além de outras referencias, occupou uma pagina inteira com o assumpto da semana. Intitulava-se a illustração: «O matadouro de Santa Cruz, segundo o Major Quaresma», e o desenho representava uma fila de homens e mulheres a marchar para o choupo que se via á esquerda. Um outro referia-se ao caso pintando um açougue, «O açougue Quaresma»; legenda: a cozinheira perguntava ao açougueiro:
—O Sr. tem lingua de vacca? O açougueiro respondia: Não, só temos lingua de moça, quer?