Ricardo moveu-se na cadeira. Batendo com o braço num dunkerque, veiu atirar ao chão uma figurinha de biscuit, que se esphacelou em innumeros fragmentos, quasi sem ruido.

[SEGUNDA PARTE]

I
NO «SOCEGO»

Não era feio o logar, mas não era bello. Tinha, entretanto, o aspecto tranquillo e satisfeito de quem se julga bem com a sua sorte.

A casa erguia-se sobre um socalco, uma especie de degrau, formando a subida para, a maior altura de uma pequena collina que lhe corria nos fundos. Em frente, por entre os bambús da cerca, olhava uma planicie a morrer nas montanhas que se viam ao longe; um regalo de aguas paradas e sujas cortava-a parallemente á testada da casa; mais adeante, o trem passava vincando a planicie com a fita clara de sua linha capinada; um carreiro, com casas, de um e do outro lado, sahia da esquerda e ia ter á estação, atravessando o regato e serpeando pelo plaino. A habitação de Quaresma tinha assim um amplo horizonte, olhando para o levante, a noruega, e era tambem risonha e graciosa nos seus muros caiados. Edificada com a desoladora indigencia architectonica das nossas casas de campo, possuia, porém, vastas salas, amplos quartos, todos com janella, e uma varanda com uma columnata heterodoxa. Além desta principal, o sitio do «Socego», como se chamava, tinha outras construcções: a velha casa da farinha, que ainda tinha o forno intacto e a roda desmontada, e uma estrebaria coberta de sapê.

Não havia tres mezes que viera habitar aquella casa, naquelle ermo logar, a duas horas do Rio, por estrada de ferro, após ter passado seis mezes no Hospicio da praia das Saudades. Sahira curado? Quem sabe lá? Parecia: não delirava e os seus gestos e propositos eram do homem commum embora, sob tal apparencia, se pudesse sempre crer que não se lhe despedira de todo, já não se dirá a loucura, mas o sonho que cevara durante tantos annos. Foram mais seis mezes de repouzo e util sequestração que mesmo de uso de uma therapeutica psychiatrica.

Quaresma viveu lá, no manicomio, resignadamente, conversando com os seus companheiros, onde via ricos que se diziam pobres, pobres que se queriam ricos, sabios a mal dizer da sabedoria, ignorantes a se proclamarem sabios; mas, delles todos, daquelle que mais se admirou, foi de um velho e placido negociante da rua dos Pescadores que se suppunha Attila. Eu, dizia o pacato velho, sou Attila, sabe? Sou Attila. Tinha fracas noticias da personagem, sabia o nome e nada mais. Sou Attila, matei muita gente—e era só.

Sahiu o Major mais triste ainda do que vivera toda a vida. De todas as cousas tristes de ver, no mundo, a mais triste é a loucura; é a mais depressora e pungente.

Aquella continuação da nossa vida tal e qual, com um desarranjo imperceptivel, mas profundo e quasi sempre insondavel, que a inutiliza inteiramente, faz pensar em alguma cousa mais forte que nós, que nos guia, que nos impelle e em cujas mãos somos simples joguetes. Em varios tempos e lugares, a loucura foi considerada sagrada, e deve haver razão nisso no sentimento que se apodera de nós quando, ao vermos um louco desarrazoar, pensamos logo que já não é elle quem fala, é alguém, alguém que vê por elle, interpreta as cousas por elle, está atraz delle, invisivel!...