Acabado esse inventario, passou duas semanas a organizar a sua bibliotheca agricola e uma relação de instrumentos metereologicos para auxiliar os trabalhos da lavoura.

Encommendou livros nacionaes, francezes, portuguezes; comprou thermometros, barometros, pluviometros, hygrometros, anemometros. Vieram estes e foram arrumados e collocados convenientemente.

Anastacio assistia a todos esses preparativos com assombro. Para que tanta cousa, tanto livro, tanto vidro? Estaria o seu amigo patrão dando para pharmaceutico? A duvida do preto velho não durou muito. Estando certa vez Quaresma a ler o pluviometro, Anastacio, ao lado, olhava-o espantado, como quem assiste a um passe de feitiçaria. O patrão notou o espanto do criado, e disse:

—Sabes o que estou fazendo, Anastacio?

—Não sinhô.

—Estou vendo se choveu muito.

—Para que isso, patrão? A gente sabe logo de olho quando chove muito ou pouco... Isso de plantar é capim; pôr a semente na terra, deixar crescer e apanhar...

Elle falava com a sua voz molle de africano, sem rr fortes, com lentidão e convicção.

Quaresma, sem abandonar o instrumento, tomou em consideração o conselho de seu empregado. O capim e o matto cobriam as suas terras. As larangeiras, os abacateiros, as mangueiras estavam sujos, cheios de galhos mortos, e cobertos de uma medusina cabelleira de herva de passarinho; mas, como não fosse época propria á póda e ao corte dos galhos, Quaresma limitou-se a capinar por entre os pés das fruteiras. De manhã, logo ao amanhecer, elle mais o Anastacio, lá iam, de enxada ao hombro, para o trabalho do campo. O sol era forte e rijo; o verão, estava no auge, mas Quaresma era inflexível e corajoso. Lá ia.

Era de vel-o, coberto com um chapéo de palha de côco, atracado a um grande enxadão de cabo nodoso, elle, muito pequeno, myope, a dar golpes sobre golpes para arrancar um teimoso pé de guaximba. A sua enxada mais parecia uma draga, um escavador, que um pequeno instrumento agricola. Anastacio, junto ao patrão, olhava-o com piedade e espanto. Por gosto andar naquelle sól a capinar sem saber?... Ha cada cousa neste mundo!