De facto, Genelicio tinha arranjado a transferencia e não fôra só isso que o decidira a casar-se. Tendo escripto uma—«Synthese de Contabilidade Publica Scientifica»—viu-se, sem saber como, cumulado de elogios pela imprensa desta capital. O Ministro, attendendo ao merito excepcional da obra, mandou-lhe dar dous contos de premio, tendo sido a edição feita á custa do Estado, na Imprensa Nacional. Era um grosso volume de 400 paginas, typo dôze, escripto em estylo de officio, com uma basta documentação de decretos, e portarias, occupando dous terços do livro.
A primeira phrase da primeira parte, o quinhão do livro verdadeiramente synthetico e scientifico, fôra até muito notada e gabada pelos criticos, não só pela novidade da idéa, conto tambem pela belleza da expressão.
Dizia assim: «A Contabilidade Publica é a arte ou sciencia de escripturar convenientemente a despeza e receita do Estado».
Além do premio e da transferencia, elle já tinha promessa de ser sub-director na primeira vaga.
Ouvindo tudo isso que tinham dito o Almirante, o General e os convidados novos, o Major não pôde deixar de observar:
—Depois da militar, a melhor carreira é a de Fazenda, não acham?
—Sim... Bem entendido, fez o Dr. Florencio.
—Eu não quero falar dos formados, apressou-se o Major. Esses...
Ricardo sentia-se na obrigação de dizer qualquer cousa e foi soltando a primeira phrase que lhe veiu aos labios:
—Quando se prospera, todas as profissões são boas.