Passada a emoção, a moça se debruçou sobre o chiqueiro, depois passeou a vista pelos quatro pontos e Quaresma perguntou:

—Que dê teu marido?

—O doutor?... Está lá dentro.

O marido tinha resistido muito em acompanhal-a até ali. Não lhe parecia bem aquella intimidade com um sujeito sem titulo, sem posição brilhante e sem fortuna. Elle não comprehendia como o seu sogro, apezar de tudo um homem rico, de outra esphera, tinha podido manter e estreitar relações com um pequeno empregado de uma repartição secundaria, e até fazel-o seu compadre! Que o contrario se desse, era justo; mas como estava a cousa parecia que abalava toda a hierarquia da sociedade nacional. Mas, em definitivo, quando D. Adelaide o recebeu cheia de um immenso respeito, de uma particular consideração, ele ficou desarmado e todas as suas pequenas vaidades foram tocadas e satisfeitas.

D. Adelaide, mulher velha, do tempo em que o imperio armava essa nobreza escolar, possuia em si uma particular reverencia, um culto pelo doutorado; e não lhe foi, pois, difficil demonstral-o quando se viu diante do Dr. Armando Borges, de cujas notas e premios ella tinha exacta noticia.

Quaresma mesmo recebeu-o com as maiores marcas de admiração e o doutor, gozando aquelle seu sobrehumano prestigio, ia conversando pausadamente, sentenciosamente, dogmaticamente; e, á proporção que conversava, talvez para que o effeito não se dissipasse, virava com a mão direita o grande annelão symbolico, o talisman, que cobria a phalange do dedo indicador esquerdo, ao geito de marquise.

Conversaram muito. O joven par contou a agitação politica do Rio, a revolta da fortaleza de Santa Cruz; D. Adelaide a epopéa da mudança, moveis quebrados, objectos partidos. Pela meia noite todos foram dormir com uma alegria particular, emquanto os sapos levantavam no riacho defronte o seu grave hymno á transcendente belleza do céo negro, profundo e estrellado.

Acordaram cedo. Quaresma não foi logo para o trabalho. Tomou café e esteve conversando com o doutor. O correio chegou e trouxe-lhe um jornal. Rasgou a cinta e leu o titulo. Era o «O Municipio», orgão local, hebdomadario, filiado ao partido situacionista. O doutor se havia afastado; elle aproveitou a occasião para ler o jornaleco. Pôz o pince-nez, recostou-se na cadeira de balanço e desdobrou o jornal. Estava na varanda; o terral soprava nos bambus que se inclinavam mollemente. Começou a leitura. O artigo de fundo intitulava-se «Intrusos» e consistia em uma tremenda descompostura aos não nascidos no logar que moravam nelle—verdadeiros estrangeiros que se vinham intrometter na vida particular e politica da familia curuzuense, perturbando-lhe a paz e a tranquillidade.

Que diabo queria dizer aquillo? Ia deitar fóra o jornaleco, quando lhe pareceu ler seu nome entre versos. Procurou o logar e deu com estas quadrinhas:

POLITICA de CURUZU