Nam se-devem admetir mais concordancias, (nam falo daquela entre dois Sustantivos) que de Sustantivo com Adjetivo: Verbo com o Nome. O Adjetivo concorda com o Sustantivo em numero, e cazo, que sam comuns a ambos: nam em genero, porque o Adjetivo nam tem genero, mas somente o Sustantivo: poem-se porem o Adjetivo em uma terminasam, conrespondente ao genero do-Sustantivo. Alem disto o Adjetivo, nam concorda com o Sustantivo proprio, v.g. Petrus: mas com o Sustantivo comum, v.g. Homo: e vale o mesmo dizer: Petrus est bonus: que se disese-mos: Petrus est homo bonus: vel artifex, vel magister bonus &c. Quando nam á nome comum, recorre-se aos nomes, Res, Factum, Opus, Negotium, e outros semelhantes, que antigamente tinham, significasam mais extensa, que a que oje lhe-dam. Damesma sorte quando Ovidio dise: Nox, & Amor, & Vinum nil moderabile suadent; deve-se intender asim: non suadent factum, vel opus, vel negotium moderabile. Virgilio umas vezes dise: Præneste altum: intendendo Oppidum. outras vezes: Præneste sub ipsa: intendendo sub ipsa Civitate. podia tambem dizer: Præneste altus: intendendo Locus. Terencio dise: Eunuchum suam; intendendo Comoediam, ou Fabulam; porque Eunuchus é masculino. Deixo outros exemplos, com que se-mostra, que a concordancia sempre é com o Sustantivo comum.
Á infinitos exemplos que provam, que o Relativo concorda com o susequente expreso, ou supreso, em numero, cazo, e terminasam conrespondente ao genero: damesma sorte que outro Adjetivo. Temos exemplo bem claro em Cicero, do-expreso: Ego tibi illam Aciliam legem restituo, qua lege simul accusasti[18]: e em outra parte[19]: Sequitur enim caput, quo capite non permisit. Cezar abunda muito destes modos de falar, porque afetava clareza. Acham-se exemplos do-supreso: Populo ut placerent, quas fecisset fabulas[20]: i. e. Populo ut placerent fabulæ, quas fabulas fecisset. Do-que fica claro, que o Relativo concorda, em genero, numero, e cazo, como dizem comumente, com o seu susequente; que é o mesmo antecedente-repetido. Isto basta por-agora.
A segunda concordancia, é do-Verbo com o Nome: os quais concordam em numero, que é comum a ambos: nam em pesoa, porque esta é somente do-Verbo: mas poem-se o Verbo em uma terminasam, conrespondente à pesoa, que o Nome significa. Devem-se porem advertir algumas coizas. I. A primeira, e segunda pesoa do-Verbo, raras vezes se-construe com o Nome expreso, senam por-distinsam, ou emfaze. II. A terceira pesoa do-Verbo, construe-se tambem com um Verbo infinito. v.g. Scire tuum nihil est: pro, scientia tua. Tambem algumas vezes sem nome expreso: v.g. Aiunt, supple, homines. Tonat, sup. Deus. outras vezes com o Nominativo: Saxa pluunt. Tambem se-uza do-Nome, sem Verbo expreso: Rari quippe boni. i. e. sunt. III. No-Verbo com o Nome, tem lugar a Figura Sintesis, que parece, que discorda do-Nome expreso: mas a verdade é que concorda, com o sinonimo oculto. v. g. Pars epulis onerant mensas: onde o Verbo concorda, com o sinonimo oculto, Plurimi. Tem tambem lugar a figura Zeugma, em que o Verbo concorda, com o mais vizinho: Tu quid ego, & populus mecum desideret, audi. Tem tambem lugar a Silepsi, emque o Verbo concorda, com o mais digno: Si tu, & Tullia lux nostra valetis, ego, & suavissimus Cicero valemus.
IV. Porque o Adjetivo significa acidente, nam pode estar só sem sustantivo, que signifique a sustancia. o mesmo digo das-terminasoens do-Verbo que significa, movimento de alguma coiza: e asim sempre se-subintende a dita coiza. Nam á Orasam sem Verbo, e Nome. se o Verbo é finito, o suposto é Nominativo: se é infinito, é Acuzativo. A Letra, Silaba, Voz, e Orasam, pode ser suposto do-Verbo, e do-Adjetivo. V. Do-sobredito se-inferem varias coizas. É falso, que os Nomes de numero, come tres, & decem, concordem entre si. É falso, que os Adverbios, e Conjunsoens concordem com o Indicativo, Optativo &c. deve-se dizer, que se-construe um com outro. E nisto com pouca diferensa se-comprende, tudo o que se-diz da-Sintaxe de concordar.
A Regencia, é a que mostra o seu efeito, em outra coiza que rege. Quatro sam as vozes que regem outras: Nome, Verbo, Participio, e Prepozisam. É falso, o que se-ensina comumente, que o Adverbio, Conjunsam, Interjeisam, Verbo pasivo, Participio pasivo, Gerundio, Nome adjetivo, reja, e pesa cazo: porque o cazo que se-acha com eles, é regido de uma parte supresa, pola figura Ellipsis.
A regencia ou é Gramatical, que segue as regras da-arte: ou Figurada, que se-desvia delas. E porque a regencia se-exercita nos-Cazos do-Nome, daqui vem, que toda a Sintaxe de Regencia se reduz, à explicasam deses seis Cazos. v.g. no-Nominativo aponta-se, quando entra na orasam. despois, quais sam as partes da-orasam, que se-construem com ele, ou simplez, ou dobrado. O mesmo digo de todos os outros Cazos: na explicasam dos-quais deve-se muito advertir, de mostrar quais sam as partes, que verdadeiramente os-regem: e nam enganar os estudantes, com as doutrinas das-Gramaticas vulgares. V.g. o Genitivo é cazo somente regido, por-um Sustantivo expreso, ou supreso: ou por-uma parte, que esteja em lugar de Sustantivo. É pois necesario mostrar-lhe, que se-enganam os outros, que atribuem o tal Genitivo, a outras partes da-orasam. Com este metodo, explica-se mui brevemente a Sintaxe, e mui solidamente: porque se-reduzem todas as construisoens figuradas, ao modo de falar regular: e se-descobrem os verdadeiros principios da-Regencia: postos os quais, dezaparecem todos aqueles Apendices, e Limitasoens da-Gramatica uzual: as quais nam de outra coiza nacem, senam de establecer principios falsos. Despois, explica-se a Gramatica Figurada: e se-aponta o fundamento da-Figura, e como se-pode reduzir à construisam natural. porque sem esta inteligencia, nam se-pode ir para diante na Gramatica.
ORTOGRAFIA, E PROZODIA.
As outras duas partes da-Gramatica sam mais facis, porque menos contrariadas. A noticia das-Letras, e Ortografia, é sumamente necesaria, para escrever bem, e ler correntemente nam só a moderna, mas tambem a antiga escritura: em que vareiam muito as letras. O mesmo digo da-Prozodia, ou quantidade das-silabas. Tambem nisto é necesario, uzar melhor metodo, que o da-Gramatica comua: e conheso eu muito bem, que se podem dizer, com mais clareza.
Eisaqui tem V.P. uma idea do-que sinto, sobre a Gramatica. Parece-me bastante o que dise, paraque veja V. P. quanto trabalho encurtaria uma Gramatica, concebida nestes termos: e uns principios tam claros, como os em que se-funda. Nam poso dilatar-me mais nesta materia, porque serîa compor Gramatica; e o meu argumento nam é ese. Eu sei, quem tem composto uma Gramatica, pouco diferente da-ideia que propuzemos: e tem composto outro particular escrito, com que se-aprende Gramatica mais facilmente, e em menos tempo: os quais podia publicar, para utilidade deste Reino. Dois nosos amigos lhe-pediram instantemente, que a-impremise: mas ele desculpa-se sempre com dizer, que é mais facil, conquistar um novo mundo; doque despersuadir os Velhos, da-antiga Gramatica. Cita alguns exemplos com que mostra, que a paixam obra nestes particulares mais, que o juizo: e lamenta-se muito, que se-tenham reprovado tantas coizas, sem as-lerem, nem intenderem.
O que eu poso segurar a V. P. é, que com este metodo, aprende-se em um ano mais Gramatica, doque nam sabem muitos, que a ensinam trinta anos, ou pasáram nela toda a sua vida. É erro persuadir-se, que um omem ou deva, ou posa ter prezentes todas as regras, que se-acham na Gramatica do-P.Alvares. A experiencia deveria dezenganar, os que estudáram por ela; e mostrar-lhe, que aquele estudo morre com a escola. Um estudante, despois de seis ou sete anos de Manoel Alvares, se acazo nam le os antigos Latinos, e procura intendèlos; ou nam pasa para a Filozofia, onde a necesidade o-obriga a intendèlos, e falar a tal lingua; fica toda a sua vida ignorante de Latim, com toda a sua Gramatica. Porem se acazo segue o exercicio do-Latim, de tal sorte se-familiariza com a lingua, como se fora nacional; e comesa a falar por-uzo. Aqui nam é necesario mais prova, que proguntálo a eses mesmos leitores. apenas conservam umas ideias gerais, das-regras de Gramatica. Onde fica claro, que tudo aquilo é superfluo. O metodo porem que aponto, é mais facil de se-conservar na memoria, porque é natural: e chega à origem das-coizas. Mas em um e outro sistema é verdade, que preceitos sem uzo, nada valem. Onde deve o estudante, nam só aprender a Gramatica, mas exercitar esas regras no-discurso, na leitura, e na composizam: descobrindo em toda a leitura as regras, que na Gramatica lhe-insinuam: no-que deve ter igual cuidado o mestre, que o estudante. No-primeiro ano, deve ensinarlhe Gramatica: o que se-pode fazer com muita facilidade. No-segundo, traduzir os autores mais facis: como algumas Cartas de Cicero, as Fabulas de Fedro, Terencio, Cornelio Nepote. procurando que o estudante asine a regencia das-partes, e descubra neses livros, os principios que estudou: e intendendo as outras particularidades mais reconditas da-Gramatica: as quais nam sam para o primeiro ano.