Pues de ser, o nó ser, la duda os mueve.

Como, si idea sois de ojos tan claros,

Hazeis los ojos fé para creeros,

Y hazeis la vista fé para miraros?

Yo me resuelvo en fin que he de perderos.

Pues si el veros es solo imaginaros;

Siendo imaginacion, como he de veros?

Este Soneto tem tido mil aplauzos: e ja achei quem me-disese, que era onde podia chegar, o ingenho umano. Contudo iso eu defendo, que os que o-louvam, proguntados polas palavras do-Soneto; ám-de confesar, que o-nam-intendem. Primeiramente estas palavras, instante de jazmin, concepto breve, atomo presumido, sospecha de cristal, susto de nieve, ancias del sentido: sam frazes que nada significam: e nam só em Portuguez, mas em nenhuma lingua. Dezafio todos estes poetas Portuguezes, paraque me-digam, se ouvisem um omem falar em proza daquela sorte, se o-intenderiam: pois é bem claro, que o que nada significa em proza, muito menos significa no-verso. E temos, que o primeiro quarteto nada significa: porque querendo ele significar, um pé pequeno; serve-se de termos, que nam significam iso. Na segunda quadra sobe de ponto o encarecimento: e nam se-contentando de dizer, que é pequeno, e é um ponto; acrecenta, que nam á tal pé no-mundo; pois somente fica a duvida, se o-ouve, ou nam ouve. Nos-tercetos desfaz, quanto tinha dito. Primeiro asenta, que o pé se-ve: despois diz, que nam é asim, e que somente se-pode saber por-tradisam, que á tal pé: e conclue, que nam existe senam na imaginasam, e nam é posivel que se-veja. Esta é a analize do-dito Soneto. Ora diga-me V.P. polo amor de Deus, se intende o que quer dizer, este Poeta. Primeiramente, ele nam conseguio o seu fim, que era mostrar, que o pé da-sua Dama era pequeno: provou mais doque queria; e mostrou, que nam avia tal pé. Alem diso nam adverte, a inverosimilidade do-conceito. Nam consiste a beleza de uma figura, em ter um ponto por-pé; antes isto é deformidade: consiste, em ter um pé proporcionado: e nas-molheres, a sua proporsam é, que o pé seja mais pequeno. E eu intendo, que a Dama ficaria mais contente, de ter um pé grande; doque de nam ter pés, e necesitar de moletas.

Dirmeá V. P. que o Poeta deve fingir, e inventar alguma coiza, para louvar: concedo: mas nam devem ser semelhantes parvoices, que em vez de agradar, fazem nauzea. Podem-se dizer muitas coizas daquele pé: mostrar, que para o complemento da-beleza, nam á proporsam melhor, que um pé pequeno: que nisto excede ela muito, todas as mais senhoras: que a sua brancura, e delicadeza é inimitavel: que tem toda a grasa que se-pode imaginar, em semelhante parte do-corpo. Isto, quanto ao serio. Pasando ao burlesco, podem-se dizer mil outras coizas: e pode o Poeta inventar, alguma coiza galante; com que adorne estes conceitos. Asim torno a dizer, que os que louvam o Soneto, sem considerarem isto, nam o-intendem.

Se V.P. examina o motivo, de todos estes encarecimentos; achará que provèm, do-que no-principio apontamos. Todo o ponto destes Poetas está, em singularizar-se, seja como for: e asim buscam argumentos esquipaticos, os quais obrigam a procurar, conceitos despropozitados. E unido a isto, que eles sabem pouco, o que quer dizer elogiar; daqui vem, que amontoam conceitos inverosimeis; e servem-se de expresoens, que nada significam: as quais ou por-forsa do-consoante, ou da-novidade, agradam aos ignorantes. Que o Poeta disèse maos conceitos; aindaque fose um grande defeito, era mais toleravel: mas que, por-querer dizer coizas peregrinas, diga parvoices, e contrariedades; e fale em uma lingua, que ninguem intende; isto sim que se-chama, grande defeito de Poezia. Conheso, que os sinonimos sam às vezes necesarios: que os epitetos dam muita galantaria, nos-poemas: mas com algumas condisoens. 1.o ám-de ser coizas, que signifiquem. 2.o distribuidos com moderasam. Mas estas duas coizas sam, as que pola maior parte ignoram, estes Poetas: e com tantoque consigam o consoante, nam reparam, em tudo o mais. Mas sobre todos, este tal Frei Antonio das-Chagas, caio nisto: quazi todas as suas obras, consistem em palavras, sem conceito, e sem significado. Os Romances sam menos maos: tambem o Saco da-Jeruzalem Celeste, aindaque cheio de aluzoens mui destemperadas, pode pasar: os Sonetos quazi todos sam peste: e o mesmo digo da-Filis, que muitos louvam, porque a-nam-intendem. Sei que se V. P. ler isto ao P. * * * me-terá por-um Cafre, que nam intende, que coiza é Poezia: mas eu nam falo sem prova: e quando ele me-souber responder, entam lhe-darei razam.