Pois foi tal desa espada a forsa dura,
Que ainda a terra parece que lhe-abria,
Com os sobejos do-golpe, a sepultura.
Este Soneto é parente do-antecedente. Esta fraze vida prezumida, nam sei o que significa: muito menos intendo, os dois ultimos versos da-primeira quadra: é tam sublime o conceito, que creio, que nem menos o seu amigo * * se-atreverá a explicálo, em boa proza. Tambem aquilo de chamar Mar roxo, ao Mar vermelho; nam se-pode perdoar a um omem, que fez, ou intentou fazer um poema Epico. A antiteze que se-acha na 2.a quadra, de Sair vida, e intrar morte, é outra inglezia. O que eu acho é, que se o toiro morreo de uma cutilada, pola mesma parte por-onde introu a morte, saio a vida no-sangue: e isto nam é puxansa nova; mas é coiza bem uzual. O ultimo terceto, tem um conceito bem ordinario, e em tudo semelhante, ao de outro famozo Soneto ao mesmo asumto, que comesa:
Foi para o raio de aso curta esfera,
e conclue asim:
Que emprego sofrerá forsa tam dura?
Abra o boi: rasgue a terra: e desta sorte
Saia em sobras da-morte, a sepultura.
Mas eu devo dizer o que intendo: acho que em ambas as partes o Poetas diseram, o que diria qualquer omem de ganhar. despois de terem engrandecido tanto o golpe, sam mui frios na concluzam. Para acompanhar com o Soneto, parece-me que tinham dois conceitos, mais exquizitos. Um era dizer, que com a forsa da-caida furára o bruto, o globo terraqueo; e fora parar, no-emisferio dos-Antipodas. O outro era concluir, que ao toque da-espada, se-anihilára o bruto: tomando esta palavra, no-sentido filozofico, que supoem uma forsa mais que umana. Cuido que isto era mais conveniente, ao estilo de Portugal. V. P. diga ao seu amigo, que fasa nota destes dois conceitos; para se-servir, nas ocazioens de toiros.