(Ambos se sentam em vís-á-vis junto á meza. Depois de pausa){21}

Com effeito... e em verdade, ideia tenho
De que alguem, com astucia e muito engenho,
Um dia conseguiu vêr-me no altar
Dos esponsaes. E ali, p'ra consagrar
Tal acto ou sacramento d'evangelhos,
Ante um homem dobrei os meus joelhos!
Então... padre d'aspecto venerando,
As orações do rito foi rezando,
Emquanto duas almas se fundiam
Á lei de Deus, e dois peitos se uniam
Ao regimen da mais pratica escola!
Deram-se as mãos; depois, a branca estóla
As cobriu, invocando o juramento
Que firmaria o Santo Sacramento!

(Descançando)

E jurámos, jurámos n'esse exemplo,
Que nos manda crear o bello templo
Do amor! Mas, amor, não é ter por tecto
Sómente a guarda e abrigo d'um affecto!
É mais, que de sublime, tem o vulto!
É n'elle edificar paz, honra e culto!

E assim, bem se jurou mais egualmente
Que, obreiros de castissimo ambiente,
Erigissem alli, em devoção,
O respeito, dever, religião!

(Pausa, depois proseguindo)

Realmente, senhor, lembra-me que um dia,
Quando sã madrugada alvorescia
Toda em perfumes, canticos e flôres,
Alguem, que de mim tinha por amores,
O symbolo d'aliança me entregava,
E em meu peito dizia que se achava!
Lembra-me!... Se me lembra, meu senhor,
Tão lindo despertar, tão lindo alvôr
Da pura realidade dos meus sonhos,
Feitos de beijos castos e risonhos,
De melodias suaves e plangentes!

(Com mais vida, erguendo-se)

Se me lembra a manhã em que dois entes,
Deleitados na força da paixão,
Se uniam em solemne sagração
D'um tributo!...

(Pausa, depois com magua){22}