(Em duvida)

Será, mas... mas para isso não se admitte{34}
A apparencia do arranjo, que transmitte
Não sei que, de completa opposição
Á anarchia da nossa profissão;
E eu sinto que d'instante para instante
O esp'rito se consulta, inquietante,
Na atmosphera que aqui dentro respiro...
Diga? Diga? Onde estou eu?!...

Henrique

N'um retiro
Cuja devassidão bem se proclama,
Repito, muito embora tenha a fama
D'honesto, muito embora elle se incense
D'um perfume que nunca lhe pertence.
Duvida ainda?

Margarida

Sim! eu... eu duvido!
Porque não póde ter aqui vivido
A mulher que appelida de devassa;
E affirmarei, senhor, que a nossa raça
Foge a toda e qualquer preoccupação,
Que não seja gosar devassidão!

(Olhando para tudo)

Tudo isto que a meus olhos se depara,
É coisa que se torna muito rara
A nossos olhos! Coisa vaga, inutil,
Sem valôr, pueril, impropria, futil,
Para quem como nós, p'ra quem como eu,
Se ceva nos instinctos que me deu
A sorte, e se refaz insaciada
Na sêde d'uma vida depravada!

Henrique

(Approximando-se de uma chaise-longue, e fazendo signal a Margarida para se sentar)